quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Da nossa história… (26)

Textos de Mariano Garcia (apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto“) 
Outros acontecimentos…
Recheado de polémicas, umas mais saudáveis que outras, mas também bastante recheado de acontecimentos muito importantes para a vida associativa, o ano de 1961 foi, sem sombra de dúvida, o ponto de partida para uma nova tentativa de renovação dos métodos directivos da AEP, primeiro devido aos esforços que vinham sendo desenvolvidos por José Maria Nobre Santos, enquanto Delegado Regional e depois nomeado EC Regional do Centro, tendo como adjunto José Eduardo Pena Ribeiro.
Mas também graças ao empenhamento da Fraternal e do jornal “Sempre Pronto” e ao entusiasmo de alguns jovens dirigentes, bem preparados e intervenientes, que viriam a marcar as décadas seguintes, através do seu esforço, dedicação e competência.
Por isso, nos vamos deter um pouco mais, na observação da vida associativa naquele ano, especialmente na recém-criada Direcção Regional do Centro, depois de passarmos em revista alguns outros acontecimentos, nacionais e internacionais, cujos relatos quase então passaram despercebidos perante a importância das actividades a que já fizemos referência.

Escoteiros, calça ou calção?
Por cá, ainda que sem quaisquer consequências, durou alguns meses a ardorosa discussão sobre o uso de calça ou calção no uniforme dos escoteiros. Tal discussão, que hoje nos pareceria deslocada e ridícula, não deixou de ter verdadeiro impacto naquela época. Felizmente, prevaleceu o bom senso e o uniforme, ainda que trocando de cores, tem mantido sempre as suas características essenciais.

Inauguração da casa Baden-Powell
Entretanto, em Londres, a Rainha Isabel II, inaugurava, a 12 de Junho, a Casa de B-P, edifício social e residencial para escoteiros, não só da Grã-Bretanha mas de todos os escoteiros estrangeiros que ali estejam de visita.
No seu discurso, a Rainha prestou homenagem à vida e obra de B-P, tendo afirmado: “Acontece poucas vezes que um homem possa ver durante a sua vida uma ideia crescer dos seus primeiros momentos até se desenvolver num Movimento em escala mundial.
Muitas vezes pergunto maravilhada se, quando levou 20 rapazes para a Ilha de Brownsea para experimentar a sua ideia de Escotismo para Rapazes, B-P. tinha alguma concepção de que em meio século esta experiência se teria transformado num Movimento compreendendo nove milhões de rapazes e cinco milhões de raparigas em cerca de 100 diferentes partes do mundo”.
“Baden-Powell não está já connosco, mas o seu Movimento permanece e desenvolve-se, monumento
mais forte do que a pedra ou o aço. Aqui em Ingla-terra, onde ele começou a sua obra, está pois erguida uma casa que, usando o seu nome e servindo as necessidades do Movimento, será a expressão, de uma maneira prática, da nossa gratidão para com ele. Estou certa que todos nós temos a maior satisfação em celebrar a construção deste esplêndido edifício na presença de Lady Olave Baden-Powell. É bem conhecida de todos nós a sua incansável obra a favor do Escotismo e, em particular das Guias”.
Tenho portanto o maior prazer em declarar inaugurada a Casa de Baden-Powell para os Escoteiros do Mundo”.

Falecimento de Leo Borges Fortes
Também em Junho, morria no Brasil o General Leo Borges Fortes, uma figura do escotismo mundial, grande amigo dos escoteiros portugueses e um dos mais prestigiados dirigentes da história do escotismo brasileiro.

Na Região do Centro
Voltamos à Direcção Regional do Centro (Lisboa), criada no início do ano, após os esforços organizativos a que fizemos referência no início deste texto, e dotada de serviços que prometiam promover o desenvolvimento do Escotismo naquela zona, única que se tornou activa, não obstante alguns esforço para a criação das Regiões do Norte e do Sul, que se mantiveram por mais algum tempo com os Delegados Regionais nomeados pela Direcção Central.
Dois acampamentos regionais, realizados em 3-4 de Junho e 29-30 de Julho, reuniões e actividades conjuntas dos grupos de escoteiros, sessões de aperfeiçoamento técnico de preparação para o Curso de Chefes e a organização do 1º Curso de Insígnia de Madeira, trouxeram à Região um dinamismo desusado.

Mas, cedo começaram a surgir novas polémicas perturbadoras da vida associativa. Pedro Paínho afastou-se em Junho, alegando razões profissionais, e entraram Eugénio Ribeiro Nunes e Jorge Gallis, que vinham dos efectivos da Fraternal reforçando assim uma equipa que prometia. Todavia, aproveitando o interesse de Nobre Santos em deixar a Chefia Regional par se dedicar exclusivamente à organização da Escola de Formação de Dirigentes, o Presidente da Direcção promoveu a aproximação de Rui Gomes dos Santos, tendo em vista a substituição de Nobre Santos no cargo de EC Regional. Aquele antigo dirigente, que antes de 1937 prestara bons serviços à AEP, mas que depois abandonou o Movimento para se ligar à Mocidade Portuguesa, após uma tentativa, não conseguida, de convencer os dirigentes de então a encerrarem a Associação, como era manifesto desejo da referida Organização Nacional.
Assumindo funções antes mesmo da sua nomeação, cedo se confundiu em acções lesivas da nossa Associação, nomeadamente, anulando medidas que o próprio Presidente Regional havia tomado, procurar impedir a participação dos grupos evangélicos nas comemorações de Aljubarrota e dando parecer desfavorável à realização do Curso da Insígnia de Madeira, apesar de ser assunto que estava fora das suas atribuições. Por acréscimo, constou naquela época que levou aos Serviços Centrais a presumível “ordem” de encerramento da AEP pelo sr. subsecretário de Estado da Juventude e Desportos agastado com os acontecimentos à volta da “Marcha Patriótica”, aos quais nos referiremos mais adiante, ordem essa que levada ao conhecimento da Direcção da AEP com os criteriosos comentários do prestigiado secretário dos Serviços Centrais, EC Albano da Silva, terão feito rir o Presidente.

Comemorações de Aljubarrota!...
Quase no desconhecimento da generalidade dos dirigentes dos grupos, a Chefia Nacional aderiu, sem qualquer empenhamento, diga-se, a uma iniciativa surgida no seio da Mocidade Portuguesa, que tinha em vista aproveitar o próximo aniversário da batalha de Aljubarrota para promover uma “Marcha Patriótica” que reunisse ali alguns milhares de jovens a manifestarem-se publicamente em desagravo dos ataques que vinham sendo desferidos nos meios internacionais contra a política ultramarina do governo português.
Para a Comissão Organizadora que ia ser criada, paritáriamente entre as organizações juvenis, MP, AEP e CNE, na AEP foram designados pela Chefia Nacional Mariano Garcia e José Ferreira, faltando um terceiro elemento que nunca chegou a ser designado. Cedo se percebeu que a tal comissão, nem era paritária como se afirmava, nem era organizadora, porque todo o programa lhes foi imposto logo na primeira reunião.
Reunidos no Palácio da Independência, pertença da Mocidade Portuguesa naquela época, foi construída a tal Comissão com os dois representantes da AEP, três representantes do CNE, três graduados da MP em representação do Colégio “que tivera a ideia”, mais três graduados da MP representando aquela organização e mais seis graduados da MP que fariam parte do staff de apoio e secretariado. A presidir à “sessão” o general Arnaldo Schultz e também presente o assistente nacional da MP. Esta era “uma comissão paritária que iria trabalhar para produzir um programa digno do acontecimento. A partir dali tudo se esperava da capacidade dos jovens presentes”, disse o general, e fomos à nossa vida para nos reunirmos de novo na semana seguinte.
Na reunião seguinte a “comissão organizadora” era esperada de novo pelo general que, para simplificar as coisas e poupar-nos trabalho, disse, apresentou um programa já feito, que constava essencialmente de uma grande concentração em Fátima, onde decorreriam cerimónias religiosas, seguida de um desfile até à Batalha, onde decorreriam as acções de exaltação patriótica.
Ainda que receosos do espaço escorregadio em que se movimentavam, os representantes da AEP não deixaram de manifestar a sua estranheza por se depararem com um “programa” já pronto, argumentar sobre a inutilidade da constituição da comissão e contestar frontalmente o carácter fortemente religioso da “Manifestação”, exclusivamente dirigida a católicos, onde não parecia haver lugar para “todos” os jovens, como se pretendia. Essa era a nossa responsabilidade como representantes de uma associação pluriconfessional.
Também a entrevista planeada para a EN, com a presença de um jovem de cada organização, havia sido substituída por uma intervenção já realizada pelo assistente nacional da MP.
Vendo a inutilidade da sua presença em tal comissão, os dois representantes da AEP resolveram abandoná-la, tendo Mariano Garcia enviado uma carta ao EC Geral a comunicar-lhe tal decisão.
Os factos chegaram, porém, ao conhecimento dos Grupos evangélicos, do jornal “Sempre Pronto” e do prestigiado “Diário de Lisboa”, que usou a sua NOTA DO DIA para denunciar o proselitismo que comandava o Programa da MARCHA.
Por seu lado os grupos evangélicos vieram a público anunciar a sua “adesão à marcha patriótica à Batalha”, apresentando um programa próprio para os seus escoteiros, o que veio marcar uma indesejável divisão no desejo de unificação nacional manifestado pela “Comissão organizadora”
Os escoteiros evangélicos da AEP, receberam ordem de interdição do seu programa, a que não obedeceram e fizeram uma normal actividade de romagem à Batalha, conforme relato do SP nos seus números 196 de Agosto de 1961 e 197/198 de Setembro/Outubro.
O falatório não terá agradado ao então Subsecretário de Estado para a Juventude e Rui Santos apareceu na
Associação com o “recado” de que aquele ia dar ordem para o seu encerramento.
Tal notícia nunca chegou a ser do conhecimento público, nem sequer da maioria dos dirigentes Regional par se dedicar exclusivamente à organização da Escola de Formação de Dirigentes, o Presidente da Direcção promoveu a aproximação de Rui Gomes dos Santos, tendo em vista a substituição de Nobre Santos no cargo de EC Regional. Aquele antigo dirigente, que antes de 1937 prestara bons serviços à AEP, mas que depois abandonou o Movimento para se ligar à Mocidade Portuguesa, após uma tentativa, não conseguida, de convencer os dirigentes de então a  encerrarem a Associação, como era manifesto desejo da referida Organização Nacional.
Assumindo funções antes mesmo da sua nomeação, cedo se confundiu em acções lesivas da nossa Associação, nomeadamente, anulando medidas que o próprio Presidente Regional havia tomado, procurar impedir a participação dos grupos evangélicos nas comemorações de Aljubarrota e dando parecer desfavorável à realização do Curso da Insígnia de Madeira, apesar de ser assunto que estava fora das suas atribuições. Por acréscimo, constou naquela época que levou aos Serviços Centrais a presumível “ordem” de encerramento da AEP pelo sr. subsecretário de Estado da Juventude e Desportos agastado com os acontecimentos à volta da “Marcha Patriótica”, aos quais nos referiremos mais adiante, ordem essa que levada ao conhecimento da Direcção da AEP com os criteriosos comentários do prestigiado secretário dos Serviços Centrais, EC Albano da Silva, terão feito rir o Presidente.
Mas ocupando-se seriamente do assunto, a Direcção Central autorizou e realização do Curso da IM e anulou o processo de nomeação do Rui Santos como EC Regional.
Vimo-nos, assim, livres de um perigoso estorvo.

IV Reunião Internacional dos Antigos Escoteiros
Este ano de 1961 registou ainda a realização do 4.º encontro internacional dos antigos escoteiros e guias, que teve lugar, de 28 a 29 de Outubro, em Ultrcht-Zeist, na Holanda.
A Fraternal dos Antigos Escoteiros de Portugal esteve representada pelo companheiro Daniel Correia, naquela primeira vez que participava numa reunião internacional.
Transcrevemos as suas impressões de participação naquela importante reunião, recolhidas do n. 200 do S.P. de Dezembro de 1961:
“Se mais nenhum outro motivo houvesse para ir à Holanda, país maravilhoso na sua Natureza e na obra que o homem tem realizado, valeria a pena ir lá para assistir à Conferência Internacional dos Antigos Escoteiros e Guias. É uma oportunidade que nos permite gozar, mais profundamente, o benefício que o Movimento escotista incute no espírito das pessoas e dos povos.”
“Ver reunidas 94 pessoas, representantes de 20 países, num mesmo conjunto de interesses e, porque não dizer, de verdadeira amizade, por um ideal que dignifica o indivíduo, é qualquer coisa que emociona e entusiasma a continuar a ser escoteiros até morrer.”
“Valeu a pena, na realidade, ter ido a Ultrcht-Zeist. E do muito que vi e pude compreender, trago um incentivo para todos nós: para os da Fraternal, aqueles que já pertencem à «velha guarda», que continuemos utilmente apegados a este Movimento, que movimenta e solidariza os ideais mais nobres de um ser. Para os novos, aqueles que começam, e para os que vão a meio caminho, digo para que jamais esmoreceis, mas antes pelo contrário, que sejais sempre firmes no vosso e nosso lema:- Sempre Pronto – Mais alto e mais além.”

sábado, 4 de abril de 2015

Da nossa história… (25) (apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto“)

Visibilidade internacional
Conferência Internacional do Escotismo
Ainda no ano de 1961, nova polémica estalou no seio da AEP, a propósito do anúncio da realização, em Lisboa, da 18.ª Conferência Internacional do Escotismo, uma excelente oportunidade de prestigiar o escotismo português e promover a sua divulgação junto do público. Foi esta desencadeada pelo secretário das Relações Internacionais, Manuel Lopes Peixoto, que se manifestou incomodado com a publicação de comentários ao local da sua realização no sempre atento “Sempre Pronto”, onde se podia ler:
”… Por outro lado, e já que nos é dada a feliz oportunidade de receber elementos de diversas raças e reli
giões, incluindo nestas as não cristãs, parece-nos de toda a conveniência que os nossos visitantes tomem contacto com o nosso povo e sintam o ambiente de tolerância da nossa gente, completa ausência de discriminação racial e, até, a simpatia que sempre nutrimos por raças estranhas. 

Delegados Americanos, Japoneses e Filipinos, presentes na Conferência
“Estas nossas considerações são ditadas pelo facto de nos ter constado, embora sem carácter oficial e, portanto, sem qualquer segurança de realidade, que se projecta a realização da Conferência no Seminário dos Olivais. Sem dúvida, que aquela Instituição oferece excelentes instalações e é muito de agradecer que os seus directores estejam prontos a acolher a Conferência. No entanto o local onde o Seminário se encontra instalado está arredado do convívio da cidade, numa zona ainda por urbanizar e portanto pouco acolhedora. Além disso, a realização da Conferência num Seminário desvirtua a característica da Conferência, iludindo o público acerca do seu amplo significado. Pode ainda dar a falsa impressão de que se procura afastar do centro da cidade, segregar talvez, por quaisquer preconceitos, os nossos visitantes.
 “Estamos firmemente convencidos de que as autoridades oficiais teriam o maior prazer em dispensar para a realização da Conferência um edifício público, onde normalmente se realizem Congressos Internacionais. Não merece a pena citar nenhum porque qualquer deles ofereceria boas condições para albergar a Conferência, demonstraria o bom acolhimento das autoridades portuguesas e conservaria os nossos visitantes – em número de algumas centenas – em contacto mais estreito com a capital portuguesa e com o povo português.
Reunidos numa sala de aulas,
um grupo de estudos discute um tema de interesse
 “No interesse do próprio Escotismo Português parece que conviria dar à Conferência a maior projecção. Seria conveniente também para o país que a mesma fosse realizada em edifício do Estado; fosse hóspede da nação e não de uma entidade particular, embora digna do maior respeito. Parece-nos ainda importante que o público compreenda e conheça o alto significado do Escotismo Mundial, reconhecendo a Conferência Internacional como representativa de um movimento não sectário que abrange jovens de todas as raças e crenças. Isto passará despercebido se for realizada no Seminário dos Olivais”.

A voz do “Sempre Pronto” soou no deserto e a Conferência efectuou-se efectivamente no Seminário dos Olivais, de 20 a 24 de Setembro, perdendo-se todo o impacto que teria se realizada em local mais central de Lisboa.
Sessão solene de inauguração da Conferência
Acrescentaremos, mesmo, que, contrariamente ao que tínhamos vivido em 1951, a Conferência passou quase despercebida da população e nem nas hostes escoteiras despertou o entusiasmo que um acontecimento daquela natureza sempre justifica.

“Na 18ª Conferência Internacional foram tratados assuntos de suma importância para o Movimento, tais como a eleição de um terço dos membros do Comité Mundial, a reforma dos estatutos da organização, a apresentação de relatórios sobre o desenvolvimento do Escotismo em diversas partes do mundo e ainda o estu-do e discussão de problemas diversos, como seja a preservação dos valores fundamentais do Escotismo, novas ideias para o programa escotista, formação social do adolescente e o seu adestramento espiritual, o problema financeiro do Escotismo ao nível local e nacional, etc.” – jornal “S.P.” de set/out 1961.

Antes da Conferência, de 15 a 18 de Setembro teve lugar, no Palácio Foz, a reunião do Conselho Internacional para a Formação de Dirigentes e a reunião da Equipa de Adestramento Internacional. Nesta reunião tomaram parte o Chefe do Campo de Formação de Chefes da Insígnia de Madeira de Gilwell Park, os delegados e membros das equipas de adestramento dos diferentes países. Também estiveram presentes o dr. João Ribeiro dos Santos, general Leo Borges Fortes e Engº Salvador Fernandez do Conselho Interamericano de Escotismo.
Os delegados à III Conferência Internacional de Treino

Após a Conferência, a reunião «get-toghether», ou seja a reunião informal dos Secretários Internacionais, decorreu em ambiente de excelente espírito escotista, oferecendo a oportunidade de aprofundadas trocas de ideias entre os diversos participantes.

Curso de “Insígnia de Madeira”
Tornara-se, entretanto, notória a preocupação de Nobre Santos na organização de Cursos para Chefes.
Tendo completado no ano anterior o Curso de “Insígnia de Madeira”, ministrado em Gilwell Park, em Inglaterra, aquele dirigente nomeado Deputado Chefe do Campo de Guilwell para Portugal, assumindo a chefia do Campo-Escola da AEP, chamou para seu adjunto Pena Ribeiro, que igualmente completara as provas técnicas de Gilwell Park e, logo em Fevereiro, ambos começaram a delinear a realização do 1.º Curso de Insígnia de Madeira dos Escoteiros de Portugal, tendo anunciado um Curso Preliminar, “aberto aos interessados em participar, sejam chefes de Grupos, caminheiros ou mesmo jovens alheios ao Movimento, com idades de 18 a 26 anos…” a realizar-se de 31 de Maio a 25 de Junho.
Uma das patrulhas participantes, onde podemos identificar os três primeiros, que são, respectivamente, José Relvas, João Constantino e Mariano Garcia, que ainda hoje pertencem ao efectivo da Fraternal.
O 1.º Curso de Insígnia de Madeira teria lugar na Costa da Caparica, de 7 a 15 de Setembro no PNEC, assegurando para esse efeito a colaboração de uma equipa de formadores da UEB, chefiada pelo prestigiado dirigente João Ribeiro dos Santos, aproveitando a sua estadia em Portugal para participar na Conferência Internacional de Escotismo. Este curso veio efectivamente a realizar-se naquela data, mas a sua escassa frequência decepcionou Nobre Santos, que contou apenas com um efectivo de duas patrulhas.

Da nossa história…(24) (apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto“)


Reorganizando…
O ano de 1961 iniciara com uma polémica suscitada pela análise que o jornal “Sempre Pronto”, sempre atento e interventivo, entendeu fazer do que fora o ano escotista anterior dentro da AEP, a que José Maria Nobre Santos reagiu com algum vigor, ferido pela falta de apreciação do seu esforço, ignorando que o jornal se referia global-mente a uma realidade associativa que, infelizmente, dava razão aos seus comentários. Saudável polémica entre um jornal adulto, que acompanhava o interesse de alguns dirigentes e dos antigos escoteiros na afirmação e expansão associativa, e um esforçado dirigente, que se desdobrava no louvável empenho de alcançar tal objectivo. A verdade é que, não talvez por isso, o ano de 1961 veio a ser um ano de intensa actividade associativa, especialmente a nível das estruturas centrais

Direcção Regional em Lisboa
Na realidade, depois do entusiasmo que se viveu com as actividades que celebraram o Infante D. Henrique, que levaram alguma animação aos Grupos de escoteiros, mas que evidenciaram as carências organizativas com que a AEP se debatia, parece que reorganizar teria sido a palavra de ordem, à qual só respondeu inteiramente a Região do Centro, onde José Maria Nobre Santos se fez rodear de colaboradores válidos e com eles construiu a nova estrutura regional.
A Direcção Regional, que tomou posse em 23 de Fevereiro de 1961, era constituída por Aníbal Gonçalves Ramos, Presidente; José Maria Nobre Santos, Escoteiro-chefe Regional; José Eduardo Pena Ribeiro, Chefe Regional adjunto; Duarte Gil Mendonça, secretário. Foram ainda empossados para dirigir os Serviços Culturais, Serviços de Informação e Divulgação Escotista e Serviços de Material e Uniformes, respectivamente, Pedro Cascalles Paínho, Mariano Garcia e Ernesto Clímaco do Nascimento.
A cerimónia de posse, realizada na Sede da AEP, foi presidida pelo Escoteiro-Chefe Nacional, comodoro Duarte Silva, que na oportunidade afirmou:estou convencido de que este é o acto mais importante da actual direcção, estando certo de que da competência e dedicação dos seus membros irá resultar uma época de Escotismo activo e brilhante para a Região Centro, de harmonia com as tradições dos Escoteiros de Portugal”.
Por força da reorganização regional operada, as actividades escotistas adquiriram alguma regularidade, com a dinamização de alguns grupos de escoteiros na Região Centro e num ou outro ponto do país, ao que também não era estranho a capacidade organizativa dos grupos evangélicos que levam a efeito actividades conjuntas, para as quais convidam outros grupos.
Muita desta acção está forçosamente relacionada com a investidura do jovem Armando Inácio como chefe do Grupo n.º 94, uma das unidades mais activas e influentes da Região Centro, que numa só frase demonstrava todo o dinamismo do seu programa: “… os rapazes apreciam muito não só a acção, movimento, mas a confraternização com grandes efectivos. Gostam de viver intensamente e de se sentirem apoiados por muitos companheiros. Se se realizassem actividades de conjunto com outros grupos, talvez na base regional, tais como visitas culturais, grandes jogos de inverno, exercícios, festas, sessões de cinema escotista, concursos entre patrulhas, etc., despertariam o entusiasmo dos rapazes e, fariam, até, propaganda do Movimento”.

Morte do Dr. Alfredo Tovar de Lemos
Entretanto, um facto a assinalar com a maior tristeza foi o falecimento em Fevereiro do Dr. Alfredo Tovar de Lemos, e “o Escotismo Português perdeu um dos homens mais dedicados e de maior prestígio entre os que têm militado nas suas fileiras”. Licenciado em medicina em 1908, cedo se dedicou nobremente à defesa de causas sociais e patrióticas, colaborando activamente na campanha de “O Século” a favor das crianças pobres e dirigiu com o maior empenho e competência os serviços médicos da Cruz Vermelha Portuguesa e da Federação dos Bombeiros.
No Escotismo, onde entrou já adulto, exerceu sempre os cargos mais elevados, dando provas de competência, honestidade e dedicação. Foi Comissário Nacional e mais tarde Presidente dos Escoteiros de Portugal, vindo a ser, igualmente, Presidente da Fraternal dos Antigos Escoteiros, cargos que ele dignificou com a sua postura de cidadão e patriota. Ficamos-lhe a dever a excelente reorganização e elevado prestígio conseguidos nos Escoteiros de Portugal em 1921, quando a associação se debatia com sérios problemas de identidade e desentendimentos entre os mais responsáveis. É no “Sempre Pronto” (n.º 191, Março/1961) que vamos encontrar a sentida homenagem daquele jornal e dos antigos escoteiros aquele ilustre dirigente.
A oportunidade de evocar mais uma vez a ilustre figura do dr. Tovar de Lemos, como um dirigente de excepcional envergadura, veio dar a oportunidade de denunciar, aberta ou encobertamente, as falsas dedicações que voltavam a acercar-se dos lugares cimeiros da AEP, procurando envolver-se na sua orientação, com intenções consideradas de duvidoso interesse dos interesses do Escotismo. Era um período em que o empenhamento dos antigos escoteiros se fazia sentir em volta das actividades escotistas, quer para prestar serviços mais ou menos relevantes, quer para emitir judiciosas sugestões sobre os caminhos a seguir e metas a alcançar. A tudo estava atento o jornal “Sempre Pronto” e é através dele que ficamos a conhecer o que se vai passando nos meandros associativos, eivados pela presença de elementos menos identificados com os verdadeiros valores do Escotismo.
Os antigos escoteiros, integrados na Fraternal, mantinham-se atentos e críticos ao que se passava nos Escoteiros de Portugal

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Da nossa história…(23) (apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto“)

Horizonte mais claro, mas sem sol

Não obstante os esforços dos seus responsáveis e as avulta-das verbas despendidas, numa organização onde se disputavam as prebendas e honrarias dos lugares cimeiros, a Mocidade Portuguesa evidenciara já a sua absoluta incapacidade de conquistar para a seu seio, menos ainda de forma voluntária, toda a juventude portuguesa, como havia sido planeado no seu início. 
Por outro lado, o facto de aquele organismo estar a ser dirigido desde 1956, enquanto subsecretário de estado da Educação Nacional, pelo antigo dirigente da AEP Baltasar Rebelo de Sousa, e os comportamentos colaborantes dos responsáveis pelas associações esco 
 
tistas, muitos deles comungando dos ideais dos que governavam o País, foram tornando possível uma convivência entre estas e a organização nacional, que passou a aceitar o Escotismo como parceiro útil nas suas actividades e projectos de renovação dos seus métodos.

Apoios explícitos às associações escotistas
Dessa abertura, começaram a beneficiar as associa-ções escotistas, que puderam realizar alguns dos seus anseios, como a possibilidade de alguns apoios financeiros do Estado para a participação em actividades internacionais e a dispor de facilidades na utilização das matas nacionais para as suas actividades mais significativas.
 
A AEP conseguiu mesmo, graças à intervenção do seu Presidente, a cedência de um espaço para a instalação do seu “campo escola”, na Costa da Caparica, no qual, logo em 1960, veio a realizar-se o Acampamento “Infante D. Henrique”, integrado nas Comemorações Henriquinas, que todo o País celebrou.

Após a instalação das indispensáveis estruturas de apoio, a sua inauguração, como Parque Nacional de Escotismo, veio a acontecer em 1964.

Por sua vez, o CNE, também presente nas Comemorações Henriquinas, com a realização do seu XI acampamento nacional, no Estoril, adquiriu em 1961, com forte apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, um excelente terreno em Fraião, Braga, onde veio a instalar o seu primeiro “campo escola”, inaugurado em Julho de 1963, tendo desde então prestado excelentes serviços ao Escotismo, com a frequente realização de cursos de “Insígnia de Madeira”, dos quais aproveitaram também alguns chefes da AEP, antes da criação da ENFIM.

Todavia, apesar das facilidades conquistadas, os Escoteiros de Portugal não logravam organizar-se por forma a reconquistar o prestígio público que outrora tinham alcançado, não obstante os esforços de alguns dos seus dirigentes, nomeadamente os quatro delega-dos dos Serviços Centrais, Coutinho Lanhoso no Norte (beneficiando do entusiasmo do seu adjunto Arnaldo Couto), Nobre Santos no Centro, João Trigueiros no Algarve e Moniz Silva nos Açores, que dinamizavam os chefes de Grupo mais dedicados e competentes, realizando com eles actividades bastante interessantes, mas que não logravam alcançar para a AEP a expansão tão desejada, tanto mais que continuavam a existir grupos mal organizados, com chefes indesejáveis que trans- mitiam uma duvidosa imagem dos valores do Escotismo.
Em boa verdade, o que faltava aos Escoteiros de Portugal era uma estratégia de liderança e crescimento, revelando-se a incapacidade directiva, onde a boa vontade de um Presidente, rodeado de pessoas simpáticas e colaborantes, mas absolutamente desconhecedoras da matéria escotista, não chegava para dar à AEP a força indispensável para irromper do imobilismo a que fora condenada.

Por outro lado, o Escotismo Católico desenvolvia-se por todo o País, graças à acção empenhada e entusiástica dos seus principais dirigentes e à aceitação inteligente da hierarquia da Igreja que disponibilizava espa-ços para sedes e apoiava com interesse a formação de novas unidades.

Não obstante o que fica dito, o ano de 1960 foi de grande entusiasmo pelos grupos, especialmente na Região de Lisboa, realizando-se grande número de pequenas actividade, que adivinhavam a possibilidade do despertar o adormecido movimento associativo.

Podemos ainda acrescentar os apoios muito positivos da Fraternal e do jornal “Sempre Pronto”, acompanhando e estimulando as actividades dos grupos de escoteiros. Digno de referência o concurso “Escalpe de Ouro”, realizado por S.P., que levou às patrulhas con-correntes valiosos conhecimentos e significativo esti-mulo, durante todo o ano de 1960.

Acampamento “Infante D. Henrique”

Apesar dos esforços desenvolvidos nesse sentido por alguns dos mais dedicados dirigentes, não se achavam reunidas as condições associativas para levar em frente a organização do desejado Acampamento Nacional, que serviria para associar os Escoteiros de Portugal às comemorações Henriquinas e, também, para marcar o início das actividades da AEP no então chamado “Campo Permanente dos Escoteiros de Portugal” (mais tarde denominado PNEC), na Costa da Caparica. 
 
Porém o Delegado dos Serviços Centrais para a Região Centro (era assim que se designava naquele período o responsável regional), engº José Maria Nobre Santos, também responsável pela instalação do Parque Escotista, assumiu com grande determinação o empre-endimento, que veio a concretizar-se, com o apoio incondicional do antigo escoteiro e dirigente da Frater-nal Ernesto Clímaco do Nascimento (que viria a ser nomeado Chefe do Acampamento), a que se juntou a colaboração de alguns dirigentes dos Grupos de Lisboa e arredores.
 
Os escoteiros acorreram ao acampamento com grande entusiasmo. Mas, por falta de realização dos trabalhos de preparação prévia, o acampamento não cumpriu totalmente o programa de actividades escotis-tas que estaria previsto, pois aos escoteiros e dirigen-tes presentes foi solicitado durante os primeiros dias um prolongado e esforçado trabalho de preparação do terreno, a que os todos se entregaram com abnegado esforço e verdadeiro espírito escotista.

Mesmo assim, alguns dos Grupos presentes pude-ram apresentar excelentes trabalhos de técnicas de campo, que mereceram o agrado dos muitos visitantes que o Acampamento registou
Foram convidados a participar delegações do Norte, do Sul e dos Açores. Devido à falta de meios, a Região Centro, com o apoio da Fraternal, enfrentou os custos da deslocação dos escoteiros vindos do Norte e do Algarve e para a deslocação dos escoteiros dos Açores contava-se com a colaboração da Força Aérea, mas aquela falhou à última hora e os rapazes daquele arquipélago não puderam vir.      
Acampamento da juventude no Vale do Jamor
Participando do mesmo ciclo comemorativo, tiveram lugar o XI Acampamento Nacional do CNE, na Quinta da Marinha, no Estoril e o Acampamento Internacional da Juventude, no Vale do Jamor, com o qual a Mocidade Portuguesa quis fazer uma demonstração das suas capacidades de organizar os nossos jovens, reunindo no Vale do Jamor cerca de 2000 rapazes, entre os quais muitos convidados estrangeiros e jovens trazidos das províncias ultramarinas, não deixando, porém de pressionar a presença das associações escoteiras, que estiveram representados por 40 e 26 rapazes, respectivamente, para além dos seus dirigentes principais que não deixaram de ali estar presentes para acompanhar as visitas do Presidente da República. Presidente do Conselho e diversos ministros que por lá passaram, para dignificar uma actividade espaventosa mas de fraca qualidade pedagógica, na qual se terá gasto um rio de dinheiro.


domingo, 28 de outubro de 2012

Da nossa história… (22)

(apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto“)
Da falta de uma estratégia global…
O 46º Aniversário dos Escoteiros de Portugal
foi comemorado com um acampamento em Carcavel
o
Não obstante os esforços de grande número de dirigentes, que iam produzindo boas actividades nos seus grupos e mesmo ao nível das regiões, a evidente falta de uma estratégia de crescimento associativo e de um plano global de actividades, que transmitisse mais entusiasmo aos grupos e uma visão pública da importância do Escotismo, a acção da AEP continuava ao nível de uma confrangedora mediania, tornando-se mais do que evidente que se estavam perdendo excelentes oportunidades de criar novas expectativas posto que, por um lado seria de todo lógico poder contar com o apoio do seu Presidente na obtenção de benesses e patrocínios, quer das entidades oficiais quer de algumas empresas nacionais, por outro lado adivinhava-se já uma certa abertura para o Escotismo perante a notória falta de credibilização e de aceitação pública da Mocidade Portuguesa.
      Ao contrário, o Escotismo Católico investiu fortemente no seu desenvolvimento, dedicando especial atenção à criação de novos agrupamentos por todo o País e também nas colónias ultramarinas, onde conseguiu ladear a proibição imposta pelo decreto 29453, através de instrumentos baseados na concordata de 1940. A isso, acrescentou elevado investimento na formação dos seus dirigentes, num tal entusiasmo que o observador menos atento poderia supor que a associação católica teria nascido realmente nos anos “cinquenta”.
   Na realidade, as alterações que se verificaram na sua estrutura, a mudança de nome da associação, a “descoberta” de novas palavras para identificarem, entre nós, o Movimento e os seus praticantes – escutismo e escuteiro – palavras que impuseram no léxico português, e um discurso de novidade entusiasmante, ainda que incorrecto, tudo parecia justificar tal suposição.         
   Apesar da AEP dispor de uma figura tão carismática no panorama político nacional, era o CNE que, mais inteligentemente, se conduzia, através dos corredores das hierarquias católicas e apoiando-se em acordos que estabelecia, através desta, com as entidades oficiais ou com os comandos da Mocidade Portuguesa, que ia colhendo os melhores resultados no que dizia respeito ao indispensável apoio institucional e facilidades operacio-nais.
   Para que esta afirmação não pareça vazia de conteúdo, permitimo-nos recorrer a documento insuspeito, para citar um exemplo apenas, de entre muitos: “… em 1956 seria convocado o II Congresso da Mocidade Portuguesa. E, facto de relevo e revelador do reconhecimento do escutismo católico, o CNE foi especialmente convidado pelo então secretário de estado da Educação, Baltasar
Padre Ferreira da Silva

Rebelo de Sousa, para participar no congresso, como observador, mas com o objectivo de que «a sua experiência pedagógica, o resultado do seu esforço e a clareza do seu ideal pudessem ajudar a MP a escolher um rumo novo, o que viria a ser o sistema de voluntariado no seio dessa organização, como ficaria a ser uma das conclusões do Congresso, graças a uma especial intervenção, entre outras muitas e até de dirigentes da MP, dos dirigentes nacionais do CNE, que apoiaram essa tese»(1)
   Entenda-se, porém, que o que fica dito não representa senão o reconhecimento pelo excelente trabalho desen-volvido naquele período pelo Escutismo Católico Português e pelos seus dirigentes, que acreditaram no Escotismo e o entenderam como verdadeiro instrumento de educação da juventude, com destaque para o incansável e meritório trabalho desenvolvido pelo padre Manuel Ferreira da Silva, seu assistente nacional e, cumulativamente, secretário-geral, que foi o motor e grande orientador de todo esse desenvolvimento, o qual apontava, em 1952, o caminho a seguir:                                              
em primeiro lugar, melhorar a nossa posição: firmando e aperfeiçoando a consciência dos nossos chefes; e depois recrutar novos, que passando pelos nossos campos-escola que, ficou decidido se deverão realizar todos os anos que for possível, vejam no Escutismo um movimento ideal para os jovens e para as famílias(1).
__________________
1) “CNE Uma História de Factos”

A visita do general Spry
   Facto saliente e de acentuada importância foi a visita a Portugal do Director da Repartição Mundial do Escotismo, general Daniel C. Spry, que chegou a Lisboa no dia 17 de Abril de 1959.
   A aguardar o ilustre dirigente, estiveram no aeroporto os secretários internacionais da AEP e do CNE e outros representantes das direcções daquelas associações e da Fraternal dos Antigos Escoteiros, para além de duas deputações de caminheiros da AEP e CNE, que fizeram a guarda de honra ao visitante.
Na noite do dia seguinte, os escotei-ros, em festa, receberam o ilustre dirigente na Escola Francisco Arruda. Uma guarda de honra na escadaria de acesso ao edifício acolheu o vis-tante, que ao entrar na sala foi saudado pelo entusiasmo esfusiante dos muitos escoteiros presentes e cumprimentado pelo prof. Calvet Magalhães, director daquela escola, Ali Dandachi, Comissário dos escoteiros da Síria, Henrique Tenreiro, Duarte Silva, Manuel Lopes Peixoto, Diogo Afonso, dirigentes da AEP, D. Paulo de Lencastre e Vítor Lima Santos do CNE, bem como muitos outros dirigentes das duas associações e da Fraternal.  
O padre Pedro Gamboa, que dirigiu os escoteiros, saudou o visitante e apresentou-o à numerosa assistência, explicando a importância do seu alto cargo no Movimento Escotista e da missão da Repartição Mundial do Escotismo. Depois conduziu os escoteiros, que entoaram diversas canções e executaram gritos que animaram a assistência, oferecendo-lhe um verdadeiro ambiente escotista.
O ministro da Educação conversa animadamente
com o General Spry, na presença de dirigentes
das duas associações
   O general Spry, dirigiu-se aos escoteiros e guias para lhes dizer que se alegrava muito em ver ali tantos e tão bem uniformizados, acrescentando: “O que está dentro do uniforme é bastante mais importante, contudo o uniforme ajuda a compreender o que está dentro” e continuou “Muitos de vós, talvez, não vos tendes apercebido de que pertenceis a uma organização muito mais vasta, que conta mais de oito milhões de membros em 80 países diferentes, de diferentes religiões, nacionalidades, que têm a pele de diferentes cores, altos, baixos, gordos, magros, mas que de facto têm muito em comum e pertencem à mesma fraternidade mundial. Quanto mais viajo – e tenho viajado 100.000 milhas anuais – mais verifico que as nossas semelhanças são mais do que as nossas diferenças. O denominador comum é a mesma Lei, a mesma Promessa, os mesmos ideais…”.
O General Spy foi recebido
pelo ministro da Presidência,
acompanhado pelos
dirigentes da AEP e CNE
   As palavras do orador, traduzidas por Lima e Santos, foram vibrantemente aplaudidas pelos escoteiros, guias e antigos escoteiros presentes.
   Tomou depois a palavra o comandante Tenreiro, presidente da AEP, que fez o elogio do general Spry, após o que colocou no peito do visitante a medalha de reconhecimento LIS DE PRATA, que distingue o seu trabalho e dedicação pelo Escotismo Mundial.
   Seguiu-se a intervenção de D. Paulo Lencastre, saudando o visitante, destacando o seu meritório trabalho, após o que lhe entregou o COLAR DE NUNO ÁLVARES, igualmente a mais alta distinção daquela associação.
O Presidente da AEP cumprimenta
o General Spry,
depois de o condecorar
com a medalha LIS DE PRATA,
pela sua dedicação ao Escotismo
   Os antigos escoteiros, representados por Ernesto Nascimento e Vasco Antunes, fizeram entrega ao Director da Repartição Internacional do Escotismo de uma bonita placa de prata com a insígnia da Fraternal, com apropriada dedicatória.    Sensibilizado, Daniel Spry agradeceu: “aceito as condecorações não como preito de homenagem, mas como lembrança daquilo que o Escotismo Português tem feito pelo Movimento”.
   O general Spry deslocou-se a Lisboa para se aperceber do desenvolvimento das duas associações e preparar a 18.ª Conferência Internacional do Escotismo, que viria a realizar-se em 1961.
   O Director da Repartição Mundial foi recebido pelo Ministro da Educação Nacional, dr. Francisco Leite Pinto, que lhe ofereceu um almoço, para o qual foram igualmente convidados dirigentes da AEP e CNE, bem como um representante da Mocidade Portuguesa.
   Daniel Spry teve ainda oportunidade de realizar uma conferência de imprensa para dizer aos jornalistas portugueses as razões da sua vinda a Portugal e explicar a forma de funcionamento do Escotismo Mundial, que dispõe de comissários nas diversas partes do mundo, através dos quais se vai mantendo informado, referindo-se ainda às “profundas transformações que estão acontecendo em África”, de onde acabara de chegar.

Visita de Lady Baden-Powell
     Em 5 de Fevereiro de 1960, um numeroso grupo de guias e escoteiros aguardavam no aeroporto a chegada de Lady Baden-Powell, Chefe Mundial das Guias, a figura viva mais representativa de todo o movimento escotista.
Saudada com grande entusiasmo, a ilustre visitante recebeu os cumprimentos de boas vindas dos dirigentes das associações guidista e escotistas, bem como da Fraternal dos Antigos Escoteiros.
           
Maria Luísa Magalhães Esteves Pereira,
que fundou em Portugal o primeiro grupo de Guias,
entrega a Lady Baden-Powell uma lembrança da Fraternal



José M. Nobre Santos, Delegado dos Serviços Centrais da AEP
na Região Centro, cumprimenta a Chefe Mundial das Guias,
em nome daquela associação
No dia seguinte, na sala de cinema do Secretariado Nacional da Informação, realizou-se uma festa de homenagem pro-movida pelas Guias de Portugal, na qual estiveram presentes: D. Maria Guardiola, em representação do ministro da Educação Nacional, o ministro do Ultramar, o embaixador de Inglaterra e muitas guias, escutas e escoteiros.
     Em outra cerimónia, rodeada de simplicidade, a AEP, através do seu chefe-geral, fez entrega à ilustre visitante da condecoração LIS DE PRATA.
     Lady Baden-Powell demorou ainda alguns dias no nosso país, a convite da associação das Guias, que a rodearam de atenções e lhe proporcionaram o conhecimento de algumas belezas de Portugal. Regressou a Inglaterra no dia 16 de Fevereiro.

Da nossa história…(21)(apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto “)

Tempos de transição e expectativa

Já dissemos que a estabilidade associativa sentida na AEP, com a chegada à presidência de Henrique
Tenreiro, e o entusiasmo de alguns dos seus melhores dirigentes, aliado ao grande empenhamento dos delegados regionais então nomeados, que se esforçavam para dinamizar as suas zonas, foram os grandes responsáveis pelo relativo desenvolvimento vivido por alguns dos seus melhores Grupos, durante a década de cinquenta.
Não podemos, porém, esquecer que deste breve período de entusiasmo foram igualmente responsáveis a organização dos grupos ligados às igrejas evangélicas e a Fraternal dos Antigos Escoteiros, que estimulava os grupos com as suas propostas de actividades conjuntas, visitas e concursos que atraiam o interesse dos escoteiros.
Sobre tudo isto estava o apoio estimulante do jornal ”Sempre Pronto”, permanentemente presente e actuante em todas as acções que aquelas realizavam. Inseparável desta apreciação está a figura de Eduardo Ribeiro, já que em todas aquelas três entidades se evidenciava todo o seu conhecimento, espírito interventivo e vontade férrea de servir o Escotismo, pugnando pela divulgação dos seus valores essenciais e defendendo-o acaloradamente das intervenções espúrias que muito prejudicavam o seu desenvolvimento.
O indesmentível empenhamento do Director do “Sempre Pronto” gerou à sua volta uma pequena equipa
de colaboradores e uma enorme onda de simpatia que estiveram bem no centro do melhor que se fez naquele período da vida dos Escoteiros de Portugal.
Todavia, é bom dizer-se que o entusiasmo descrito se vivia apenas em alguns sectores associativos,já que a
nível directivo não existia uma verdadeira estratégia de divulgação e crescimento associativo e disso se ressentiam os grupos menos apoiados, ou situados fora dos centros de influência das entidades atrás referidas.

Maior visibilidade do escotismo católico
É neste período, que começa a notar-se um forte investimento da Igreja Católica na sua associação
escutista, através da proliferação de Agrupamentos junto das paróquias, ganhando visibilidade pública com
as acções desenvolvidas pelos escutas, assente na criteriosa renovação das estruturas do CNE, após a
decisão do seu Conselho Geral, realizado em Fátima em 10 e 11 de Junho de 1950, para transferência da Sede da Junta Central de Braga para Lisboa.
Perante o bom trabalho desenvolvido naquele período pelo escotismo católico, somente condicionado
pelo proselitismo das suas acções, foi notória a ausência de um sólido programa de acção da AEP e a debilidade da sua direcção e chefias central e regionais, que não proporcionou a resposta associativa que seria de esperar, através da realização de actividades caracterizadas pelo Método escotista, proporcionando ao Movimento português a universalidade dos seus princípios inter-étnicos e inter-confessionais.
Bem pelo contrário, viveu-se um período dealheamento e cedências perante os vanguardismos
ditados pelo peso social da associação congénere, do que podem servir de mero exemplo a intervenção na
Assembleia Nacional, em 19 de Novembro de 1952, do deputado Jacinto Ferreira, ou a confusão lançada à volta dos vocábulos escoteiro e escotismo, onde os dirigentes
da AEP de então evidenciaram a sua fraqueza, ignorância e desinteresse.
Seja como for, registou-se neste período um verdadeiro crescimento do CNE, que assume o Método e
as realidades do Movimento escotista, realizando alguns acampamentos nacionais com bom nível e, prestando especial atenção às necessidades de formação, organiza quatro campos escola para dirigentes (Santarém –1951, Linhares, Faro e Ermesinde – 1953).

O ressurgimento da Associação das Guias de Portugal
A AGP, que havia cessado a sua actividade em 1937, pela integração na Mocidade Portuguesa Feminina das suas principais dirigentes, para ali ocuparem postos elevados, desperta no dia 3 de Maio de 1953 com a criação da 1ª Companhia de Guias “Rainha D. Leonor”, apoiada pela Igreja Presbiteriana, na Rua de S. Bento, acto a que assistiu a figura prestigiosa de Denise Lester, representante em Portugal da Secretaria Mundial do Guidismo e a senhora Frank Murraydo Conselho Nacional de Guidismo dos Estados Unidos da América.
Foi guia chefe desta unidade Júlia Gomes Pena Ribeiro e subchefe Sara de Oliveira Serra.
A Igreja Católica, que não vira até então interesse na versão feminina do Escotismo, apesar de algumas
vozes que se faziam ouvir nesse sentido, ao constatar que o ressurgimento do Guidismo se estava operando
através das igrejas evangélicas, empenhou-se fortemente na reactivação da AGP e, do entendimento entre o
Cardeal Patriarca de Lisboa e o ministro da Educação surgiu a nomeação de uma comissão executiva para
aquela associação, de acordo com os seus estatutos de 1934. Em 19 de Março de 1954 foram nomeadas: Maria do Carmo da Câmara Castelo Branco, para presidente;Isabel de Estarreja, para comissária nacional; e a condessa de Castelo Branco para comissária inter-regional.
Em Abril do ano seguinte, uma nota oficial subscrita pela secretária nacional, anunciava o reinício das actividades da Associação de Guias de Portugal.
A 7 de Março de 1955, Leslie E. Whateley, directora da Repartição Internacional do Guidismo, visita Lisboa para tomar conhecimento da evolução do movimento no nosso País, tomando parte numa reunião
onde estiveram presentes: condessa de Estarreja, comissária nacional; Maria Vicenta de Martel, secretária do Conselho Nacional; Cecília Abecassis Empis, tesoureira; Maria Teresa de Verda, vogal; Maria Rita Novais de Castro, vogal; Maria Palmira Santiago, comissária regional; Ester Seruya; Júlia Pena Ribeiro e Sara Serra, da Companhia “Rainha D. Leonor”.
Esteve igualmente presente a delegada da Repartição Internacional Denise Lester.
A Companhia de Guias, “D. Filipa de Vilhena”, surgiria na Igreja Presbiteriana Lisbonense, na Rua Febo Moniz, em Abril de 1956, apoiada pela secção “Ávares Cabral” do Grupo n. 94, igualmente criada
naquela igreja.
Em 5 de Fevereiro de 1960, as Guias de Lisboa recebem a visita de Lady Baden-Powell, no âmbito de
uma visita que realizou pelos países onde o Guidismo se encontrava em desenvolvimento.
Mas só em 1963 a AGP veio a ser aceite como Membro Aspirante da WAGGGS –World Association of
Girl Guides and Girl Scouts (Associação Mundial das Guias), na 18ª Conferência Mundial realizada na
Dinamarca, passando a Membro Efectivo apenas na 22ª Conferência Mundial, que teve lugar em 1975, em
Inglaterra.

D. Maria Luísa Magalhães Esteves Pereira, que fundou em Portugal o primeiro grupo de Guias, saúda a
Chefe Mundial do Guidismo

1º acampamento “saudade”
Nos Escoteiros de Portugal, esfumados os últimos entusiasmos provocados pela actividade verdadeiramente
significativa da década, que foi o Jambori do Jubileu, os grupos caíram de novo nas suas actividades
de rotina, não obstante os diversos acampamentos regionais que se iam realizando, embora com fraco
registo de participação.
Digno de nota, mais pela novidade do que pela sua dimensão, foi o acampamento de confraternização
realizado pela Fraternal em 20 e 21 de Setembro de 1958, na Quinta de S. Gonçalo em Carcavelos, onde
estiveram presentes 70 antigos e mais de 100 actuais escoteiros. Simpática e digna de registo a presença do
chefe Francisco Pina, acompanhado de 10 escoteiros do Grupo n. 6, de Olhão, que vieram propositadamente.
Alguns antigos escoteiros fizeram-se fotografar com escoteiros do Grupo n. 94
Esta actividade, a que o jornal “Sempre Pronto” propôs se pusesse o nome de Acampamento da Saudade,
enquadrava-se nas preocupações já então sentidas pelos dirigentes da FAEP, por um lado estimular a vida activa dos grupos, por outro lado mostrar a importância do escotismo adulto, tal como já então o entendíamos.
O acampamento foi suficientemente bom para dar prazer aos antigos, que recordaram com saudade as actividades do seu tempo e reencontraram velhos amigos. Houve interesse e entusiasmo nos jogos e alegria no “Fogo de Conselho” e na “Festa de Campo”.
No encerramento, a Fraternal galardoou os vencedores dos concursos e ofertou ao Grupo n. 12, recentemente criado, o estandarte daquele Grupo.
Nasce o “Jambori do AR”
Esta interessante actividade, que hoje marca o calendário de todas as unidades escotista em todo o mundo, representando uma significativa manifestação da vivência universal do Escotismo, surgiu em 1958 de uma iniciativa inspirada no êxito alcançado pela estação de rádio que operou durante o Jambori do Jubileu a qual estabeleceu contacto com mais de 80 países. A ideia inicial, traduzida num convite a todos os amadores de rádio através do Mundo, pretendia estabelecer uma cadeia de amizade e fraternidade ligada ao Escotismo, a realizar em 24 horas de 10 e 11 de Maio daquele ano.
Além das participações individuais, era desejável o estabelecimento de estações de rádio nas sedes centrais e dos grupos e em cooperação com as sociedades locais de rádio amadores, em qualquer banda de postos amadores e com equipamentos de harmonia com as licenças reguladoras destas actividades, recomendan-do a todos os participantes que “observassem estrita-mente as normas legais”.
Uma estação especialmente montada no Campo Escola de Gilwell Park, operada pela Sociedade de Rádios Amadores de Wanstead and Woodford seria o coração de toda esta cadeia universal.
Em Portugal, o jornal “Sempre Pronto” acolheu com interesse esta iniciativa, divulgando-a logo no seu número de Fevereiro e acompanhando-a até à sua realização. No entanto, dadas as limitações com que viviam as estações radio amadoras, com excepção da presença de um representante do próprio jornal junto da estação CT1 de Lisboa, não houve registo de intervenção de qualquer unidade escotista.
Apesar do empenho dos organizadores e de um plano convenientemente bem desenhado, esta primeira edição não alcançou grande êxito, pela escassez de tempo para a sua organização, condições atmosféricas ad-versas, etc. Todavia, os seus promotores não desistiram e lançaram uma segunda edição para o ano seguinte, fixada para a meia-noite de 23 de Outubro até à meia-noite do dia 25 (TMG).
Entretanto, o Clube Internacional Escoteiro de Londres, autor da ideia deste empreendimento, convidou a Repartição Internacional do Escotismo a assumir para o futuro a direcção dos preparativos deste “Jambori do Ar”. Para esse efeito, constituiu-se em Otava, Cana-dá, uma Comissão para cuidar deste assunto junto daquela Repartição.
Daí para cá esta actividade tomou o seu lugar fixo, de ano para ano, nos programas escotistas do mês de Outubro em todo o mundo, conquistando cada vez mais participantes.
Em Portugal, durante vários anos continuou a sentir-se as dificuldades próprias das férreas limitações impostas aos radio amadores, mas os escoteiros começaram a aderir, ainda que sem poder participar directa-mente. Com a adesão das unidades do CNE cresce o movimento em volta do “jambori do ar”. O “Sempre Pronto” continuou a ser o fiel arauto da realização do evento, empenhando-se em estabelecer contactos entre os radio amadores e os Grupos de escoteiros, até que o seu mais directo colaborador para esta matéria, Justino Estevão da Silva, foi designado como o Organizador Nacional desta actividade.
Após o 25 de Abril de 1974, com as liberdades estabelecidas nas comunicações, os escoteiros dinamizaram esta actividade, que mais tarde se instalou também na Web. Agora chamado de JOTA/JOTI, tem-se transformado numa enorme festa escotista, celebrando a amizade e o companheirismo que caracterizam o Movimento.

sábado, 25 de agosto de 2012

Da nossa história… (20) (apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto “)



A realização do espectacular Jamboree do Jubileu, que teve lugar no Sutton Park, Inglaterra, em Agosto de 1957, despertou enorme entusiasmo, não só naqueles que tiveram a felicidade de poder estar presentes e viver aquele inesquecível acontecimento, como em todos os demais escoteiros portugueses, vivendo-se durante algum tempo no seio dos Grupos de escoteiros, em ambiente de muito dinamismo, antes durante e depois da realização daquela importante actividade, estendendo-se tais efeitos até bastante mais tarde.

O Jambori dos que cá ficaram…
Numa resenha histórica, será justo lembrar uma actividade realizada no PNEC, por iniciativa da equipa «Alexandre Herculano» do Grupo n.º 94, intitulada de “O Jambori dos que cá ficaram - acampamento de confraternização espiritual com o JIM”, que decorreu nos dias 10 e 11 de Agosto com a participação dos Grupos 8, 10, 53 e 94, onde foi rigorosamente cumprido o «sistema de patrulhas».

O acampamento foi dirigido pelo chefe Samuel Vieira, pertencendo a chefia do campo escoteiro aos chefes Manuel Tacão e Idílio Gonçalves e do campo de caminheiros ao chefe Rui Cunha.

Com os referidos chefes, cuidando do programa e de toda a organização em campo, estavam os caminheiros da já referida equipa, cujos nomes (de memória) aqui lembramos, por se tratar de uma equipa verdadeiramente exemplar do que é sentir e viver o Escotismo: Júlio Maria Reis, Fernando Silveira, Luís Garcia, Mariano Garcia, Armando Inácio, João Silva, Henrique Sousa, Fernando Cavaco e Fernando Silva.

Foi uma excelente actividade, com um programa intenso e verdadeiramente exemplar de acampamento escoteiro, onde as patrulhas se dedicaram à ornamentação e aperfeiçoamento técnico dos seus campos, apresentando bons trabalhos de técnica escotista.

Não faltaram as cerimónias de abertura, fogo de conselho e festa de encerramento, esta com o compromisso de honra de um novo escoteiro.

A patrulha “Leão”, do grupo n. 10, foi a brilhante vencedora do concurso em disputa e os caminheiros prestaram homenagem a Manuel Tacão, o escoteiro mais antigo em campo.

No final, o caminheiro Mariano Garcia fez uma breve palestra sobre o significado daquela actividade, levando os presentes a pensar em Sutton Park e na grandiosidade daquela manifestação escotista e pediu a todos que, de mãos dadas, entoassem a canção do «adeus», como daí a pouco o fariam os trinta mil participantes no JIM.

Logo a seguir ao Jamboree de Sutton Park, reuniu em Cambridge, de 14 a 16 de Agosto aquela que foi uma das mais importantes Conferências Mundiais realizadas até então, não só pelo elevado número de países representados mas, principalmente, pela importância das decisões tomadas, demonstrando a grande vitalidade com que o Movimento se manifestava naquele ano do seu Jubileu.

Para além do relatório de gestão apresentado pela Repartição Mundial, foram aprovados: a filiação de novas associações (Honduras, Iraque, Malásia, Sudão e Vietname) e confirmada a filiação da Associação dos Escoteiros Israelitas de França; realização do próximo Jamboree nas Filipinas, em 1959; e mudança da sede da Repartição Mundial para Otava, Canadá, apesar da forte oposição dos países da Europa que desejavam a sua continuidade em Londres.

Estala a polémica escoteiro ou escuteiro.

Talvez cansados de se chamarem escutas, carregando com o sentido pejorativo que a palavra adquirira há alguns anos, o Corpo Nacional de Escutas resolveu passar a chamar aos seus filiados de escuteiros, exercendo influências na comissão do novo Acordo Ortográfico para admissão da nova palavra e fê-lo com tal força que expulsou de alguns dicionários portugueses a antiga palavra escoteiro, o que veio acirrar as hostes ligadas aos Escoteiros de Portugal, cujo vocábulo lhe pertencia há cerca de 40 anos.

Não vamos aqui reproduzir, por enfadonhas, todas as opiniões e teorias, mais ou menos académicas, melhor ou pior documentadas, que então se produziram nos meios de comunicação, especialmente no Jornal “Sempre Pronto” que ao assunto dedicou enorme importância, tomando posição clara sobre a matéria e dando guarida às declarações de muitos dos seus leitores.

Importa antes referir que, perante uma questão tão fracturante lançada no seio do Movimento Escotista português, os escoteiros e as suas associações souberam, ao longo dos anos já decorridos, desvalorizar a polémica e reagir da forma mais adequada e consentânea com o espírito de B-P, ficando cada uma delas com a palavra que elegeu para si, aceitando a outra igualmente como válida.

A organização dos Grupos Evangélicos
A organização dos grupos ligados às Igrejas Evangélicas, a que já nos referimos anteriormente, foi um facto durante as décadas de 50 e 60, chegando a recear-se, devido ao proselitismo de alguns dos seus dirigentes, alguma tentativa de seccionamento da AEP, o que estaria absolutamente contra o seu espírito de abertura.

Porém, nunca foi essa a intenção dos dirigentes evangélicos, que apenas aproveitaram, a favor do Escotismo, o ambiente de apoio e compreensão em que se movimentavam. O seu sinal positivo foi que, nomeadamente em Lisboa, aqueles grupos apresentavam-se organizados e realizavam regularmente actividades de boa qualidade, exteriorizando a sua capacidade de entendimento do método escotista e fazendo uma correcta e persistente divulgação do Movimento.

Os registos da realização de regulares reuniões de chefes, para estudo da situação e estabelecimento de programas de acção conjunta, valorizou o trabalho dos chamados “grupos evangélicos”. Também a novidade que constituiu a realização das Conferências de Guias de Patrulha organizadas e dirigidas por eles próprios, apenas com o apoio de alguns dirigentes mais experientes, mobilizaram todos os guias e sub-guias daqueles grupos, proporcionando-lhes ensinamentos e noções de organização e método, onde deram mostra de uma boa integração e amadurecimento dos valores do Escotismo.

A primeira das referidas Conferências teve lugar de 7 a 9 de Dezembro de 1956, a segunda realizou-se nos dias 31 de Outubro e 3 de Novembro de 1957 e chegou a estar planeada uma terceira, que não chegou a

realizar-se, porque tendo nascido a ideia de a transformar numa conferência nacional envolvendo os escoteiros e guias de todo o país, não obstante a boa vontade revelada pelo jornal “Sempre Pronto” (n.º 174 de Out.1959), que se propôs cuidar da sua organização, a iniciativa não teve o acolhimento desejado.

E por aqui ficou a magnífica ideia das conferências de guias…