A capacidade afirmativa dos Escoteiros de Portugal
Depois das modificações produzidas na estrutura associativa e apesar da década de 30 vir a ser fortemente marcada pelos graves acontecimentos que assolaram a Europa, após a subida de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, que levaram à eclosão da Segunda Grande Guerra, em 1939, a AEP viveu um período de prestigiosa expansão e grande actividade nacional e internacional, nomeadamente na primeira metade desta década, isto é, até à criação da Mocidade Portuguesa, movimento nacionalista, sob tutela do governo, que pretendeu substituir o Escotismo.
Não podemos, pois, deixar de referenciar algumas dessas principais actividades:
Criação da Organização Escotista de Portugal
Por pressão da Organização Mundial do Escotismo, a Associação dos Escoteiros de Portugal e o Corpo Nacional de Scouts, retomaram em 1932 as conversações, que haviam sido iniciadas em Março de 1928, dando lugar a diversas reuniões das partes, que levaram à constituição de uma comissão, que esteve em alguns Ministérios e chegou a ser recebida pelo Presidente da República, que elogiou os escoteiros pelo exemplo de concórdia que davam ao país, a Federação não chegou a ser constituída.
Passada a crise que dominara a vida da AEP, reataram-se as conversações, mas agora sob a égide do Governo, que se mostrou parte interessada no processo. Uma comissão constituída por dr. Dinis Curson e dr. Fausto Salazar Leite, pela AEP rev. Avelino Gonçalves e dr. Silva Passos, pelo CNS e dr. Braga Paixão, que presidia, designado pelo Ministério da Instrução Pública, produziu o documento que levou à criação da Organização Escotista de Portugal, aprovada pelo Decreto nº. 21434 de 29 de Junho de 1932, e publicado no Diário do Governo de 1 de Julho.
II Acampamento Nacional
Teve lugar em Carcavelos, de 8 a 22 de Agosto de 1933, na Quinta Nova, cedida pelo Cabo Submarino e constituiu um verdadeiro êxito a primeira actividade de âmbito Nacional após a remodelação associativa. Estiveram presentes escoteiros de todo o país continental e das Ilhas Adjacentes. Intitulada de “campo de férias”, a actividade foi bem organizada, bem dirigida e decorreu da melhor maneira escotista, reunindo o aplauso unânime de quantos nela participaram.
Enquanto decorria este Acampamento Nacional, realizava-se em Godollo, na Hungria, o IV Jambori Mundial. Foi enviada, em nome dos escoteiros acampados, uma mensagem a Baden Powell, cuja resposta foi recebida treze minutos depois. Se tivermos em conta a velocidade das comunicações naquela época, podemos avaliar o que essa resposta revelou de prestigiante para os escoteiros portugueses.
II Conferência Nacional de Dirigentes
Durante o Acampamento, de 18 a 20 de Agosto, reuniu a Conferência de Dirigentes, que fez alterações ao Regulamento Geral, recomendou a realização de actividades gerais de dois em dois anos, distinguiu o comandante Álvaro de Melo Machado com o título de Escoteiro Chefe Geral Honorário, elegeu a Comissão Permanente e tomou outras decisões de interesse para o Movimento. De facto, a AEP parecia encetar um novo surto de progresso.
Depois desta Conferência a Comissão Executiva ficou constituída por dr. Fausto Salazar Leite, António Ferreira da Silva, Rui Santos, Alexandre Correia e Raul Nolasco.
IV Jambori Mundial
Decorreu em Agosto de 1933, em Godollo, na Hungria, com a presença de 3000 escoteiros, representando 32 países. Portugal, pela primeira vez, não esteve representado oficialmente, comparecendo como visitante o dr. Manuel Gomes dos Santos, grande entusiasta do Escotismo, que vinha desempenhando diversos cargos associativos e viria a ser presidente da Comissão Executiva da AEP.
Esta ausência de uma delegação portuguesa foi por muitos interpretada como prova sintomática da inutilidade da Organização Escotista de Portugal, facto que se reconhecia igualmente lá fora. Em 1935, Portugal esteve de novo ausente na VIII Conferência Mundial, que se realizou em Estocolmo. Por esse motivo, foi feita a seguinte comunicação à Secretaria Mundial: “tenho o desgosto de vos comunicar que a organização inter-federal de Portugal, sob a égide do ministro da Instrução Pública, não deu resultados satisfatórios, e que temos tido grandes dificuldades em nos mantermos em contacto com uma das associações. O nosso comité que estude com cuidado a situação”.
É pena que ao transcrever esta comunicação, Eduardo Ribeiro não tenha esclarecido a sua autoria, nem referido qual a associação referida, nem quaisquer consequências da mesma, pelo que temos de nos ficar com o facto em si mesmo, já que não foi possível obtê-lo de outra fonte.
Fundação do Grupo nº. 13 na Sociedade de Geografia
Resultado do dinamismo adquirido após a remodelação das suas estruturas, verifica-se novo empenhamento da AEP na criação de novos grupos. Em 6 de Dezembro de 1933, escoteiros e numeroso público assistem a uma sessão solene na Sociedade de Geografia de Lisboa, a marcar a inauguração do novo Grupo n.º 13, na qual Antero Nobre, prestigiado dirigente escotista, fez uma brilhante conferência com o traçado histórico do Escotismo em Portugal. O Grupo n.13 ficou instalado naquela Sociedade por algumas dezenas de anos.
A II visita de Baden Powell a Lisboa
No dia 12 de Abril de 1934, cerca das 8 horas da manhã, atracava ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos a paquete “Adriatic”. A bordo viajava Lord Baden Powell, acompanhado de 700 dirigentes do Escotismo e Guidismo britânicos, já de regresso a Inglaterra após uma viagem por diversos portos do Mediterrâneo. B.P. era aguardado por dirigentes do Escotismo e Guidismo de Portugal, que subiram a bordo para cumprimentar o Chefe Mundial, mas este estava impossibilitado de os receber, por se encontrar doente. Foram recebidos por sir Percy Everett, um amigo de B.P. e seu colaborador desde o acampamento de Brownsea, no qual participou, em 1907.
Com a colaboração dos Rotários de Lisboa foi possível dispor de uma frota de automóveis, que levou os visitantes a Sintra e ao Estoril. Mais tarde, concentraram-se em S. Pedro de Alcântara com os Escoteiros de Portugal, os do Corpo Nacional de Scouts e as Guias de Portugal e, ainda, os Adueiros de Portugal, formando um grande desfile, aberto pela banda da Casa Pia, seguida dos “scouts” e “guides” britânicos e logo pelos escoteiros e guias portugueses, que seguiu na direcção da Praça do Município e, logo depois, até ao cais da Rocha, sempre aplaudidos por numeroso público que abria alas à sua passagem.
De novo frente ao “Adriatic”, ouviram Lady Baden Powell expressar a sua satisfação e do Chefe por se encontrarem em Portugal, acrescentando: “Fiquei encantada ao ver o vosso desfile, não só pelo vosso bom aspecto, mas pelo que esse desfile representa”.
Surge então Baden Powell, fazendo ouvir-se através da instalação sonora montada: “Irmãos escoteiros, quero dizer-vos quanto sinto não ter podido desembarcar e visitar-vos na vossa cidade”, acrescentando com o seu habitual humor “arranjei um médico muito ríspido e uma enfermeira que me obrigam a executar as suas ordens. Quero agradecer terdes vindo aqui para me verdes. Há cerca de quatro meses que estou doente e esta é a primeira vez que envergo o meu uniforme, para me apresentar aos escoteiros portugueses. Tive grande prazer em ver tão grande multidão de escoteiros com tão bom aspecto. Desculpai-me não falar português, mas prometo ir aprender o vosso idioma, assim que chegar a Inglaterra, para que o possa falar quando aqui voltar outra vez”.
O presidente da Organização Escotista de Portugal, dr. Braga Paixão, saudou B.P. em nome dos escoteiros portugueses, que saudaram o Chefe Mundial com uma estrondosa ovação.
O Rádio Clube Português havia assegurado a cobertura radiofónica e a Companhia dos Telefones garantiu uma ligação até ao estúdio, pelo que tudo que ali aconteceu foi transmitido a todo o País, o que constituiu verdadeiro acontecimento. O antigo dirigente escotista Alberto Lima Basto, assegurou a locução e tradução do evento.
A Associação dos Escoteiros de Portugal distinguida com a Ordem de Benemerência
Em 2 de Julho de 1934, em sessão solene realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, o tenente Carvalho Nunes, em representação do Chefe do Estado, colocou na bandeira dos Escoteiros de Portugal as insígnias da Ordem de Benemerência.
À cerimónia, a que assistiram muitos escoteiros e guias, presidiu o representante do Chefe do Estado, ladeado pelo dr. Braga Paixão presidente da OEP, dr. Sá e Oliveira presidente da AEP e Pais Ferreira pelo CNS.
III Acampamento Nacional
No início de Setembro de 1934, a AEP resolveu fazer o seu Acampamento Nacional no Porto, onde se iria realizar, entre 9 e 21, a Exposição Colonial, no Palácio de Cristal. Para ali se deslocaram escoteiros de todo o continente e ilhas, numa expressiva adesão.
Por dificuldades de espaço, os escoteiros não puderam acampar, como previsto, nos jardins do próprio Palácio de Cristal, mas num pequeno bosque do Colégio Nuno Álvares, na Rua do Heroísmo. Os fogos de conselho deste acampamento foram notáveis, agradando ao numeroso público que a eles assistiu, distinguindo-se a Região do Algarve, sob a chefia de João Trigueiros, cujas canções alegres muito animaram as festas.
No domingo, os escoteiros efectuaram um grande desfile, que atravessou a ruas do Porto até ao local da exposição, onde formaram em parada e o dr. Manuel Gomes dos Santos, presidente da Comissão Executiva, fez um vibrante discurso perante grande multidão.
Este Acampamento Nacional foi uma actividade para confirmar que os Escoteiros de Portugal estavam em franco desenvolvimento e progresso.
Festa da Mocidade, promovida pela AEP
Na Primavera de 1935, teve lugar, na Sala de Portugal da Sociedade de Geografia, a “Festa da Mocidade” promovida pela Associação dos Escoteiros de Portugal, com a presença de centenas de escoteiros e duas centenas e meia de scouts do CNS. Presidiu o Chefe do Estado que acendeu o simulacro de fogo de conselho. Foi uma festa notável, com assistência que enchia as galerias e que teve grande repercussão na Imprensa, que nessa altura dava muita atenção às actividades escotistas.
Concurso interpatrulhas, do jornal “Sports”
Antero Nobre, secretário geral da AEP, mantinha regularmente uma secção escotista neste jornal, que, por sua iniciativa, realizou em 14 de Abril de 1935, nas instalações do “Jockey Club”, no Campo Grande, um concurso inter-patrulhas, no qual participaram os grupos 2, 7 e 9 de Lisboa.
Conferência Nacional de Dirigentes
Em 28 de Junho de 1935 teve lugar uma reunião geral de chefes, à qual compareceram dirigentes de Lisboa, Lagos, Portimão, Faro, Olhão, Beja, Montijo, Figueira da Foz, Porto e Valença do Minho. Foram aqui eleitos o dr. Armindo Monteiro, para presidente da Associação e dr. Pedro Teotónio Pereira, para presidente da Comissão Executiva. O primeiro era ministro dos Negócios Estrangeiros e o segundo desempenhava também importante cargo público. A AEP procurava couraçar-se perante perigos que a ameaçavam mas, por outro lado, substituía verdadeiros dirigentes por figuras ligadas ao regime.
Mas a AEP continuava muito activa e em Agosto desse ano voltou a realizar um acampamento de férias, num pinhal do Estoril, junto ao Casino, que teve bastante concorrência dos grupos da Região de Lisboa e foi considerada uma boa actividade.
Semana do Escoteiro “Z”
Vivia-se já uma época em que dominavam as preocupações de uma guerra iminente e, com elas, as ideias de defesa organizada das populações. Algumas unidades escotistas começavam a sua preparação nesta área. Em 5 de Abril de 1936, o Grupo nº. 16 de Carcavelos inaugurava no Grémio Alentejano, a 1ª Semana Portuguesa “Z”, actividade inédita como divulgação dos sistemas de defesa passiva. Uma exposição de material de defesa e uma série de conferências, onde usaram da palavra individualidades especializadas no assunto, fizeram desta actividade um acontecimento local, tendo a exposição, onde também colaborou a 1ª Companhia de Guias, sido visitada por milhares de pessoas, depois da sua inauguração pelo Ministro do Interior.
Este Grupo, atingiu naquela época um grande desenvolvi-mento, sob a chefia do tenente Serafim Prazeres, sendo o dr. Manuel Marques da Mata, médico muito respeitado na localidade, o presidente da Comissão Executiva.
O Jubileu dos Escoteiros de Portugal
O ano de 1937 foi dedicado ao Jubileu do Escotismo em Portugal. Considerando que os primeiros Grupos haviam sido fundados em 1912 o Movimento completava, portanto, 25 anos em Portugal.
Ignoramos se propositadamente, esquecia-se assim a existência do Movimento em Macau em 1911 e a possibilidade de ter existido Escotismo em Coimbra, mesmo antes daquela data, a serem credíveis as noticias sobre as acções do dr. Leite Jr. Por outro lado, o reconhecimento oficial da AEP data apenas de 1913.
A inauguração oficial das comemorações, foi feita em 13 de Janeiro pelo capitão Afonso dos Santos, recém investido nas funções de comissário nacional, ao receber na sede central as chefias dos Grupos de Lisboa, perante quem prestou o seu compromisso de honra.
A cerimónia comemorativa realizou-se, em 23 de Abril, na Sociedade de Geografia e constituiu mais uma importante jornada para o Escotismo Português. Esteve presente numeroso público, bem como delegações das Guias de Portugal e do Corpo Nacional de Escutas (assim passara a chamar-se o Corpo Nacional de Scouts, a partir de Agosto de 1935), além de um numeroso contingente dos Escoteiros de Portugal
domingo, 26 de dezembro de 2010
Da nossa história…(10)
Nova crise associativa (apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)
Chegados a 1930, os Escoteiros de Portugal estão de novo na iminência de grandes transformações. Após uma fase de grande desenvolvimento, em que se realizaram actividades importantes e se participou activamente em vários acontecimentos de carácter internacional, o entusiasmo dos dirigentes, que acompanhavam e aprendiam o que de melhor se fazia noutros países, levou a um certo frenesim na disputa das ideias e processos de orientação associativa, que naquele tempo se caracterizava pela excessiva centralização das decisões na figura do Comissário Nacional. Do salutar confronto de ideias, cedo se passou para azedas disputas e desagradáveis cisões.
Não é muito fértil a informação que podemos retirar das publicações escotistas da época sobre os motivos dessas disputas, dada a formação cívica e escotista da maioria dos dirigentes e a sua preocupação em servir a AEP, que todos afirmavam estar acima das suas divisões. Nem mesmo o conceituado “Sempre Pronto”, aparecido em Janeiro de 1945, se ocupou alguma vez em aprofundar a história daquele período associativo, não obstante a proximidade temporal que lhe permitiria obter testemunhos directos dos intervenientes e com eles conseguir uma análise exacta dos acontecimentos, o que hoje lamentamos, tal como o desaparecimento dos arqui-vos dos Serviços Centrais.
Como único sinal do diferendo, talvez mais efeito do que causa, terá ficado a publicação simultânea de dois jornais – “O Escoteiro” e “Escotismo” - ambos se afirmando defensores das causas associativas, mas onde se liam comentários reveladores das discordâncias existentes.
A polémica agravou-se com a publicação, em 5 de Abril de 1930, de uma Ordem de Serviço do Comissário Nacional, com a aplicação de severos castigos a diversos dirigentes com larga folha de serviços e reconhecido prestígio, que reagiram pondo em causa a orientação associativa.
Estava instalada a crise. Tanto “O Escoteiro” como o “Escotismo” suspenderam a publicação com os números de Dezembro, não sem que este avançasse com a proposta de um candidato à Presidência da AEP, apontando a figura prestigiada do dr. João de Barros, afirmando tratar-se de uma deliberação tomada pelos Grupos de Lisboa, com vista ao “dia em que se verificar a mudança da actual situação associativa, desdobrando-se, como é mister, o cargo de comissário nacional”, batendo-se pela realização de uma Conferência Nacional.
Porém, a crise que a AEP atravessava provocou, como acontece por vezes nestas circunstâncias, a aproximação de antigos e prestigiosos dirigentes, que procuraram restabelecer a harmonia e resolver os problemas associativos.
A Conferência Nacional veio a realizar-se em Dezembro de 1931, convocada por livre iniciativa da Direcção Central, dando satisfação aos anseios da maioria dos dirigentes e decorreu em ambiente de respeito e fraternidade, alheia ao recente conflito, aprovando o novo Estatuto, que foi depois homologado pelo Decreto nº. 21397, de 23 de Junho de 1932, operando a desejada mudança na estrutura associativa.
Pena foi que todo o conflito desenvolvido tivesse levado ao afastamento do dr. Alfredo Tovar de Lemos, dirigente de elevado prestígio que prestara relevantes serviços nos dez anos que estivera à frente dos Escoteiros de Portugal. A sua carta de demissão de comissário nacional, “por discordar de quanto se fez na Conferência de Dirigentes, pela sua imutabilidade e inoportunidade”, constava do expediente da reunião de 25 de Janeiro de 1932 da nova Comissão Executiva, presidida por Fausto Salazar Leite, que resolvera manter nas suas funções o secretário geral Albano da Silva e o comissário das Relações Internacionais Sigvald Wiborg. Foi ainda resolvido não prover o cargo de comissário nacional e convidar o dr. Sá Oliveira, comandante Álvaro Melo Machado, capitão Azinhais Mendes, Roberto Moreton, dr. Gomes dos Santos e dr. Valentim Lourenço, para tomarem parte nas sessões da Direcção Central, dando o seu parecer nos assuntos importantes. Mais tarde, foram convidados a integrar esta comissão de notáveis, o dr. João de Barros e o engº. Teixeira de Vasconcelos.
Após a remodelação ditada pela Conferência de Dirigentes, a AEP entrou de novo num período de estabilidade, que deu lugar a um novo surto de desenvolvimento. Mas o principal resultado da Conferência foi a transformação profunda das estruturas associativas, que constituía o objectivo dos dirigentes em oposição à antiga Direcção Central. Além da já citada Comissão Executiva, eram os seguintes os órgãos dirigentes da AEP:
a) Conferência de Dirigentes, constituída principalmente pelos representantes dos grupos de escoteiros e representantes de instituições de antigos escoteiros para estudo e propaganda do Escotismo (FAEP), na qual residia a soberania associativa.
b) Comissão Permanente da Conferência de Dirigentes, nos intervalos das sessões desta, competindo-lhe servir de organismo de recurso das decisões da Comissão Executiva ou seus representantes; promover a constituição de Tribunais de Honra; desempenhar funções de organismo consultivo a que a Comissão Executiva poderia recorrer; fiscalizar as contas; discutir e votar o Regulamento Geral, dentro das normas orientadoras que a Conferência Nacional aprovasse.
A Associação dos Escoteiros de Portugal entrou, assim, numa estrutura democrática que veio, no futuro, evitar problemas como aquele de que o Movimento acabara de
sair.
Chegados a 1930, os Escoteiros de Portugal estão de novo na iminência de grandes transformações. Após uma fase de grande desenvolvimento, em que se realizaram actividades importantes e se participou activamente em vários acontecimentos de carácter internacional, o entusiasmo dos dirigentes, que acompanhavam e aprendiam o que de melhor se fazia noutros países, levou a um certo frenesim na disputa das ideias e processos de orientação associativa, que naquele tempo se caracterizava pela excessiva centralização das decisões na figura do Comissário Nacional. Do salutar confronto de ideias, cedo se passou para azedas disputas e desagradáveis cisões.
Não é muito fértil a informação que podemos retirar das publicações escotistas da época sobre os motivos dessas disputas, dada a formação cívica e escotista da maioria dos dirigentes e a sua preocupação em servir a AEP, que todos afirmavam estar acima das suas divisões. Nem mesmo o conceituado “Sempre Pronto”, aparecido em Janeiro de 1945, se ocupou alguma vez em aprofundar a história daquele período associativo, não obstante a proximidade temporal que lhe permitiria obter testemunhos directos dos intervenientes e com eles conseguir uma análise exacta dos acontecimentos, o que hoje lamentamos, tal como o desaparecimento dos arqui-vos dos Serviços Centrais.
Como único sinal do diferendo, talvez mais efeito do que causa, terá ficado a publicação simultânea de dois jornais – “O Escoteiro” e “Escotismo” - ambos se afirmando defensores das causas associativas, mas onde se liam comentários reveladores das discordâncias existentes.
A polémica agravou-se com a publicação, em 5 de Abril de 1930, de uma Ordem de Serviço do Comissário Nacional, com a aplicação de severos castigos a diversos dirigentes com larga folha de serviços e reconhecido prestígio, que reagiram pondo em causa a orientação associativa.
Estava instalada a crise. Tanto “O Escoteiro” como o “Escotismo” suspenderam a publicação com os números de Dezembro, não sem que este avançasse com a proposta de um candidato à Presidência da AEP, apontando a figura prestigiada do dr. João de Barros, afirmando tratar-se de uma deliberação tomada pelos Grupos de Lisboa, com vista ao “dia em que se verificar a mudança da actual situação associativa, desdobrando-se, como é mister, o cargo de comissário nacional”, batendo-se pela realização de uma Conferência Nacional.
Porém, a crise que a AEP atravessava provocou, como acontece por vezes nestas circunstâncias, a aproximação de antigos e prestigiosos dirigentes, que procuraram restabelecer a harmonia e resolver os problemas associativos.
A Conferência Nacional veio a realizar-se em Dezembro de 1931, convocada por livre iniciativa da Direcção Central, dando satisfação aos anseios da maioria dos dirigentes e decorreu em ambiente de respeito e fraternidade, alheia ao recente conflito, aprovando o novo Estatuto, que foi depois homologado pelo Decreto nº. 21397, de 23 de Junho de 1932, operando a desejada mudança na estrutura associativa.
Pena foi que todo o conflito desenvolvido tivesse levado ao afastamento do dr. Alfredo Tovar de Lemos, dirigente de elevado prestígio que prestara relevantes serviços nos dez anos que estivera à frente dos Escoteiros de Portugal. A sua carta de demissão de comissário nacional, “por discordar de quanto se fez na Conferência de Dirigentes, pela sua imutabilidade e inoportunidade”, constava do expediente da reunião de 25 de Janeiro de 1932 da nova Comissão Executiva, presidida por Fausto Salazar Leite, que resolvera manter nas suas funções o secretário geral Albano da Silva e o comissário das Relações Internacionais Sigvald Wiborg. Foi ainda resolvido não prover o cargo de comissário nacional e convidar o dr. Sá Oliveira, comandante Álvaro Melo Machado, capitão Azinhais Mendes, Roberto Moreton, dr. Gomes dos Santos e dr. Valentim Lourenço, para tomarem parte nas sessões da Direcção Central, dando o seu parecer nos assuntos importantes. Mais tarde, foram convidados a integrar esta comissão de notáveis, o dr. João de Barros e o engº. Teixeira de Vasconcelos.
Após a remodelação ditada pela Conferência de Dirigentes, a AEP entrou de novo num período de estabilidade, que deu lugar a um novo surto de desenvolvimento. Mas o principal resultado da Conferência foi a transformação profunda das estruturas associativas, que constituía o objectivo dos dirigentes em oposição à antiga Direcção Central. Além da já citada Comissão Executiva, eram os seguintes os órgãos dirigentes da AEP:
a) Conferência de Dirigentes, constituída principalmente pelos representantes dos grupos de escoteiros e representantes de instituições de antigos escoteiros para estudo e propaganda do Escotismo (FAEP), na qual residia a soberania associativa.
b) Comissão Permanente da Conferência de Dirigentes, nos intervalos das sessões desta, competindo-lhe servir de organismo de recurso das decisões da Comissão Executiva ou seus representantes; promover a constituição de Tribunais de Honra; desempenhar funções de organismo consultivo a que a Comissão Executiva poderia recorrer; fiscalizar as contas; discutir e votar o Regulamento Geral, dentro das normas orientadoras que a Conferência Nacional aprovasse.
A Associação dos Escoteiros de Portugal entrou, assim, numa estrutura democrática que veio, no futuro, evitar problemas como aquele de que o Movimento acabara de
sair.
ALBANO DA SILVA

Albano da Silva entrou para o Grupo n.º 1 da AEP em 1915, com a idade de 13 anos, tendo prestado o seu Compromisso de Honra em 31 de Julho seguinte.
Entusiasta e dedicado ao Movimento, viveu com os camaradas do seu Grupos os chamados tempos heróicos do Escotismo em Portugal. Sempre presente e activo nas inúmeras actividades do seu Grupo, adquiriu uma sólida formação escotista, tendo sido escolhido para participar, em 1920, no 1º Jambori Mundial, em Londres, e esteve igualmente presente no 2º Jambori Mundial, na Dinamarca e no 3º Jambori Mundial, em Birkinhead, Inglaterra.
Conquistou o diploma de escoteiro chefe no Campo Escola realizado em 1922/23, tendo então sido nomeado chefe do Grupo n. 1, cargo que desempenhou até 1925.
Mas foi como dirigente associativo que mais se distinguiu, dado o seu espírito organizado, poder de iniciativa e superiores qualidades nas relações humanas, granjeando amigos que admiravam a fineza da sua personalidade e o aprumo que o caracterizavam, escutando as suas palavras e seguindo os seus conselhos. Participou nas mais diferentes equipas directivas dos Escoteiros de Portugal, ocupando durante largo tempo o cargo de secretário-geral, que desempenhou com uma eficiência e carinho tais que, nesse tempo, ninguém podia conceber os Serviços Centrais sem a sua presença, salientando-se sempre a sua lealdade aos Princípios e a sua dedicação sem limites, que tornavam a sua acção apreciada e respeitada por todos, considerando muitos ser imprescindível a sua participação associativa.
Não cabe nesta breve resenha todo o historial escotista deste companheiro, que foi sem sombra de qualquer dúvida uma das mais importantes figuras dos Escoteiros de Portugal.
Aderente à ideia de criação da FAEP, em cujo esboço organizativo participou. A Fraternal teve sempre nele um membro e colaborador dedicado, sempre presente, em corpo ou em espírito nas actividades dos antigos escoteiros. Fez parte dos corpos gerentes e representou Portugal em reuniões internacionais da “Fellowship”, mantendo activa correspondência com companheiros no estrangeiro. Grave enfermidade diminuiu-lhe a visão e fê-lo afastar-se das suas leituras, mas o amor pelo Escotismo acompanhou-o até aos seus últimos dias.
DR. ALFREDO TOVAR DE LEMOS

Alfredo Tovar de Lemos, licenciado em medicina aos 23 anos, cedo começou a preocupar-se com os problemas sociais e com a saúde dos mais desprotegidos. O seu amor pelo próximo levou-o a interessar-se por todos os problemas onde verificava que a sua acção como médico podia ser útil. Dedicou-se ao estudo da Higiene Social e à propaganda da Educação Física, e dirigiu a primeira Escola de Reeducação de Sinistrados do Trabalho. Desempenhou diversos cargos públicos, tendo sido Delegado de Saúde e Vereador da Câmara de Lisboa.
No entanto, foi ao Escotismo que dedicou por mais largo tempo a sua atenção. Entrou para o nosso Movimento por convite do Rev. Eduardo Moreira e, desde logo, se sentiu atraído pelos objectivos educativos e mística do Escotismo.
Oficial do exército e médico prestigiado, acompanhou os trabalhos dos primeiros dirigentes da AEP, vindo a aceitar, em 1921, a orientação associativa, em momento difícil da AEP, tomando posse dos cargos de Presidente da Direcção e de Escoteiro Chefe Geral, realizou um extraordinário trabalho de reorganização, desenvolvimento e prestígio dos Escoteiros de Portugal.
Para se compreender a eficácia da sua acção, basta dizer-se que ao tomar posse encontrou um efectivo de 120 escoteiros. Quando se retirou em 1930, o número de escoteiros elevava-se a 5.000.
Ao seu trabalho ficamos a dever o crescimento do escotismo no país e o reconhecimento da sua importância cívica e educativa, quer pelos governantes quer pelo público em geral.
Aderente da primeira hora à ideia de criação da FAEP, apoiou o seu desenvolvimento inicial, tendo sido eleito o seu primeiro Presidente da Direcção, cargo que manteve até 1960.
REV. EDUARDO MOREIRA

Rev. Eduardo Moreira pedagogo, historiador e filólogo ilustre, colaborou na fundação do Grupo n.º 1 e fez parte da primeira direcção da AEP, na qualidade de secretário, desempenhando com elevada competência e grande responsabilidade as mais delicadas tarefas, enfrentando com rara coragem todas as situações adversas. Quando em 1921 se viu sozinho na direcção da AEP, por demissão colectiva dos seus colegas, não só suportou a situação como foi à procura do apoio de amigos de reconhecido prestígio escotista, conseguindo que o dr. Alfredo Tovar de Lemos aceitasse ser o Presidente dos Escoteiros de Portugal, o que veio dar início a um dos mais prestigiosos períodos da história da AEP.
Foi um dos mais brilhantes divulgadores do Escotismo e sempre manteve estreita ligação com os antigos escoteiros.
Exerceu grande influência nas acções que levaram à criação da FAEP, da qual foi membro fundador, tendo participado em numerosas conferências, divulgando os valores do Escotismo e acentuando a importância da organização dos antigos escoteiros, prestando relevantes serviços à FAEP, à qual se manteve sempre ligado, até ao fim da sua vida.
COM.te ÁLVARO MELO MACHADO

Melo Machado presidindo aos trabalhos da Sessão Inaugural da FAEP, em 19 de Novembro de 1949
Álvaro Melo Machado é por todos considerado o Pioneiro do Escotismo português.
Governador de Macau ao tempo do aparecimento do Escotismo, foi o seu introdutor naquele território e logo se deixou conquistar pelos ideais do Movimento, que passou a fazer parte da sua própria vida, vindo a prosseguir na sua divulgação após o regresso a Portugal, onde promoveu a criação do Grupo n. 2 e participou na fundação da Associação dos Escoteiros de Portugal, da qual foi o primeiro Escoteiro Chefe Geral. Foi também responsável pela criação do Grupo n. 10, em Lourenço Marques, quando as suas funções oficiais o levaram a Moçambique.
Foi, ainda, um grande divulgador do Escotismo, através da sua acção em conferências e pelos numerosos artigos publicados em diversos jornais.
Participou na fundação da Fraternal dos Antigos Escoteiros, tendo sido eleito para a sua Presidência após a constituição em 11 de Março de 1950.
Da nossa história…(9)
Os gloriosos anos vinte(apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)
A Associação dos Escoteiros de Portugal tivera no princípio da década de vinte uma profunda transformação, graças ao Dr. Tovar de Lemos que assumiu a orientação do Movimento, pondo ao seu serviço toda a sua competência, energia e prestígio. Formou novos dirigentes e relacionou o Escotismo com personalidades de elevado prestígio, envolvendo nele o interesse do Governo e do Chefe do Estado.
Toda a década de vinte foi assinalada por enorme progresso e realizaram-se actividades importantes, com participação activa em muitos acontecimentos escoteiros, até de carácter internacional.
Agosto de 1924 – II Jambori Mundial e II Conferência Internacional do Escotismo
Neste grande acontecimento, que teve lugar na Dinamarca, a AEP fez-se representar pelos dirigentes Henrique de Barros, Dinis Curson e Joaquim Duarte Borrego, que participaram na Conferência e ainda os dirigentes Manuel Borrego e Albano da Silva, que participaram como observadores. Todos estiveram presentes no Jamboori, no qual tomaram parte cinco mil escoteiros de 35 países.
Esta Conferência Internacional ficou célebre, pela Conclusão nela aprovada:
“A Conferência Internacional do Escotismo, reunida em Cope-nhaga em Agosto de 1924, declara que o Escotismo é obra de carácter Nacional, Internacional e Universal, e o seu objectivo é dotar cada uma das nações, e todo o Mundo em geral, de jovens que sejam física, moral e espiritualmente fortes.
“É NACIONAL, porque visa, por meio de organismos nacionais, dotar cada nação de cidadãos úteis e válidos.
“É INTERNACIONAL visto que não reconhece fronteiras às boas relações entre escoteiros.
“É UNIVERSAL, porquanto procura insistentemente incutir o sentimento de fraternidade universal aos escoteiros de todas as nações, classes e crenças. O Escotismo não pretende de forma nenhuma enfraquecer, mas antes fortalecer, as crenças religiosas individuais. A Lei do Escoteiro requer que este pra-tique real e sinceramente a sua religião, e a orientação da Obra proíbe toda a espécie de proselitismo em reuniões mistas”.
I Conferência Nacional de Escotismo - 31 de janeiro e 1 de Fevereiro de 1925
Teve lugar na Câmara Municipal de Lisboa, com a presença de numerosas entidades oficiais e particulares, tendo a sessão inaugural sido presidida pelo dr. João de Barros, ministro da República.
Foi notável o êxito alcançado por esta 1ª Conferência Nacional do Escotismo, que teve o seguinte programa:
O Escotismo e a preparação militar, tese apresentada pelo coronel do Estado-Maior Henrique Pires Monteiro, professor da Escola Militar e membro do Conselho Nacional da AEP.
O intercâmbio com o estrangeiro nas instituições portuguesas de educação pelo sistema de Baden-Powell, tese defendida pelo dr. Dinis Curson, escoteiro chefe e ex-comissário das relações internacionais da AEP.
Necessidade da preparação teórica dos dirigentes escoteiros, tese do engº. Henrique de Barros, escoteiro chefe e comis-sário das relações internacionais da AEP.
O sistema das insígnias, tese apresentada pelo dr. Alfredo Tovar de Lemos. Comissário nacional da AEP.
Recrutamento dos Chefes e seu treino, tese também apresentada pelo dr. Tovar de Lemos.
A influência Social do Escotismo, tese defendida pelo escoteiro-chefe Marcelo Alves Caetano.
Da Viabilidade e eficácia do Escotismo em Portugal, tese do dr. Álvaro Viana de Lemos, Professor da Escola Normal de Coimbra.
Campos de Jogos, tese apresentada por Eduardo Moreira, secretário-geral da ACM do Porto e comissário de zona da AEP.
As conclusões destas teses, aprovadas pela Conferência, constituíram um precioso repositório de orientação para o Escotismo em Portugal.
13-23 de Agosto de 1927 – 1º Acampamento Nacional
Teve lugar na Mata de Queluz e funcionou, também como Escola de Guias, dado o empenhamento na formação que do-minava nos meios dirigentes da AEP.
Foi uma actividade muito importante, que veio evidenciar o desenvolvimento alcançado pela Associação, depois das transformações operadas após a entrada do dr. Tovar de Lemos
Inicialmente tratado como se fora um Campo da Escola de Guias, pelo número de escoteiros e dirigentes presentes, pelas actividades realizadas, pelo interesse que despertou tanto nas entidades oficiais como no público, esta actividade veio a ser considerada, nos registos da AEP, o seu 1º Acampamento Nacional.
Compareceram os grupos nºs. 1, 2, 5, 7, 9, 11, 25 e 40, de Lisboa; delegações do Porto, Coimbra, Figueira da Foz, Algarve, Oliveira de Azemeis, Seixal, Torres Novas e Torres Vedras.
Os escoteiros da Escola de Guias constituíram-se em cinco patrulhas, para instrução e serviço ao acampamento.
4 de Março de 1929 - A primeira visita de B.P. a Lisboa
Vindo de um cruzeiro do Mediterrâneo e ilhas do Atlântico, o paquete “Duchesse of Richmond” atracou ao cais da Rocha de Conde de Óbidos, pelas 6 horas da tarde daquele dia 4 de Março. No mastro principal do navio sobe a flâmula do Escoteiro Chefe Mundial. No cais, encontravam-se numerosas representações de escoteiros e muito público. Uma guarda de honra constituída pelos Escoteiros de Portugal e seus convidados: Corpo Nacional de Scouts e Adueiros de Portugal.
Baden-Powell sobe à ponte de comando e recebe a entusiástica saudação dos escoteiros portugueses, enquanto a multidão se agita e ovaciona o Fundador do Escotismo. Subiram então a bordo: representantes do Governo Português; dr. Tovar de Lemos, Albano da Silva e Sigvald Wiborg, respectivamente, comissário nacional, secretário-geral e comissário internacional da AEP; coronel Godfrey T. Pope, sobrinho de B.P. e grande amigo e colaborador dos Escoteiros de Portugal; dr. Weiss de Oliveira, representante do CNS; Roberto Moreton, presidente do Grupo n. 1 e outros dirigentes das três associações portuguesas.
No dia seguinte, acompanhado de dirigentes dos Escoteiros de Portugal, B.P. visitou em Cascais o Presidente da República, general Óscar Carmona. À tarde, concentraram-se na Praça do Comércio 700 rapazes em representação das três associações e organizou-se um desfile que subiu a Rua Augusta e percorreu várias ruas da cidade. O público abriu alas e aplaudiu a passagem dos escoteiros. B.P. recebeu as honras dos escoteiros, ao lado do dr. Tovar de Lemos, a uma varanda da Escola Nacional, que então existia na antiga Rua Eugénio dos Santos (hoje Portas de Santo Antão). O cortejo seguiu até à Sociedade de Geografia, onde já se encontravam as raparigas (guias da AEP) e os lobitos de Carcavelos. A Sala de Portugal ficou literalmente cheia e as galerias estavam repletas de uma escolhida assistência. Ao entrar na sala, B.P. foi acolhido com uma estrondosa ovação.
Constituída a Mesa, a que presidiu o Conde de Penha Garcia, presidente da Sociedade de Geografia, ladeado por B.P., dr. Tovar de Lemos, almirante Ernesto de Vasconcelos e coman-dante Álvaro de Melo Machado.
O Conde de Penha Garcia, depois de saudar o visitante em inglês, proferiu em português um brilhante discurso, enalte-cendo a obra educativa de Baden-Powell, findo o qual lhe entregou o diploma de sócio honorário da Sociedade de Geo-grafia. Saudaram o visitante os drs. Weis de Oliveira, pelo CNS e Alexandrino dos Santos, pelos Aduaeiros de Portugal, tendo terminado o dr. Tovar de Lemos, comissário nacional da AEP.
Baden-Powell, profundamente sensibilizado, proferiu então uma saudação aos escoteiros portugueses, que Roberto Moreton traduziu:
“Sinto-me verdadeiramente satisfeito por estar entre os meus irmãos escoteiros portugueses, lamentando que a visita seja tão curta. Levarei saudades de vós e da boa impressão do vosso gentil acolhimento. Dentro em pouco, terei de partir, porque o vapor não espera por ninguém.
“Antes, porém, de partir, escoteiros, eu quero deixar-vos três conselhos:
“1º. Deveis procurar, por todas as formas e em toda a parte, cumprir a Lei do Escoteiro.
“2º. Deveis dizer no vosso coração – o meu país é grande, mas hei-de fazê-lo maior ainda.
“3º. Todos vós deveis ser amigos dos escoteiros dos outros países”.
Lembrou que ia realizar-se em Birkenhead, na Inglaterra, um Jambori de 30.000 escoteiros e manifestou o desejo de ver ali os rapazes de Portugal. Terminou saudando os portugueses em nome dos “Boy Scouts” britânicos. B.P. retirou-se de imediato e seguiu para a Rocha do Conde de Óbidos, onde embarcou 5 minutos antes da saída do vapor. Às 19h00 o “Duchess of Richmond largava a caminho de Inglaterra.

B.P. em Lisboa, ladeado por Tovar de Lemos, Albano da Silva e Weiss Oliveira
Agosto de 1929 – O III Jambori Mundial
Os escoteiros portugueses não quiseram decepcionar B.P., quando na sua visita a Lisboa manifestou o desejo de os ver em Birkenhead, no III Jambori. Em 28 de Julho de 1929, embarcaram no paquete “Andes” cinquenta escoteiros, sendo 25 da AEP e outros 25 do CNS, graças às facilidades concedidas pela Mala Real Inglesa, depois das diligências feitas por Roberto Moreton e Godfrey Pope.
Este Jambori foi designado da “Maioridade”, pela comemo-ração dos 21 anos do Escotismo. Foi muito apreciada a pre-sença de Portugal. O coronel Wilson fez as melhores refe-rências aos escoteiros portugueses e Baden-Powell recordou com muita satisfação a visita que meses antes fizera a Lis-boa, a boa impressão que lhe causara o nosso Escotismo e que muito o penhorava a sessão de despedida na Sociedade de Geografia.
Um acontecimento memorável marcou esta grande reunião. Por iniciativa das duas associações da Dinamarca, estava a correr pelos escoteiros de todo o mundo uma subscrição (cada escoteiro não podia concorrer com mais de dois pence, ou equivalente) para oferecer a B.P. uma prenda significativa pelos vinte e um anos do Escotismo. Toda esta organização foi conservada em segredo mas, para eleger o objecto a oferecer, os dinamarqueses procuraram Lady Baden-Powell e pediram-lhe que, sem dizer para quê, se informasse junto do Chefe. qual seria a oferta que gostaria de receber. Ele pensou um pouco, agradeceu a amabilidade e, depois de recusar, perante a insistência respondeu, com bom humor: “Sim, é verdade os meus suspensórios estão velhos; se quiserem oferecer-me um par, ficarei agradecido”.
Foi assim que, durante o Jambori da Maioridade, B.P. recebeu um par de suspensórios e um automóvel “Rolls-Royce”, com reboque para campismo, oferta dos escoteiros de todo o mundo. É hoje uma peça do Museu de B.P.
V Conferência Internacional do Escotismo
Logo a seguir ao Jambori, realizou-se a V Conferência Inter-nacional, no castelo de Arrow Park, também em Birkenhead. Foram delegados à Conferência: dr. Tovar de Lemos, Albano da Silva e Joaquim Duarte Borrego, pelos Escoteiros de Por-tugal, e D. José de Lencastre, dr. Avelino Gonçalves e dr. Weiss de Oliveira, pelo Corpo Nacional de Scouts.
A Associação dos Escoteiros de Portugal tivera no princípio da década de vinte uma profunda transformação, graças ao Dr. Tovar de Lemos que assumiu a orientação do Movimento, pondo ao seu serviço toda a sua competência, energia e prestígio. Formou novos dirigentes e relacionou o Escotismo com personalidades de elevado prestígio, envolvendo nele o interesse do Governo e do Chefe do Estado.
Toda a década de vinte foi assinalada por enorme progresso e realizaram-se actividades importantes, com participação activa em muitos acontecimentos escoteiros, até de carácter internacional.
Agosto de 1924 – II Jambori Mundial e II Conferência Internacional do Escotismo
Neste grande acontecimento, que teve lugar na Dinamarca, a AEP fez-se representar pelos dirigentes Henrique de Barros, Dinis Curson e Joaquim Duarte Borrego, que participaram na Conferência e ainda os dirigentes Manuel Borrego e Albano da Silva, que participaram como observadores. Todos estiveram presentes no Jamboori, no qual tomaram parte cinco mil escoteiros de 35 países.
Esta Conferência Internacional ficou célebre, pela Conclusão nela aprovada:
“A Conferência Internacional do Escotismo, reunida em Cope-nhaga em Agosto de 1924, declara que o Escotismo é obra de carácter Nacional, Internacional e Universal, e o seu objectivo é dotar cada uma das nações, e todo o Mundo em geral, de jovens que sejam física, moral e espiritualmente fortes.
“É NACIONAL, porque visa, por meio de organismos nacionais, dotar cada nação de cidadãos úteis e válidos.
“É INTERNACIONAL visto que não reconhece fronteiras às boas relações entre escoteiros.
“É UNIVERSAL, porquanto procura insistentemente incutir o sentimento de fraternidade universal aos escoteiros de todas as nações, classes e crenças. O Escotismo não pretende de forma nenhuma enfraquecer, mas antes fortalecer, as crenças religiosas individuais. A Lei do Escoteiro requer que este pra-tique real e sinceramente a sua religião, e a orientação da Obra proíbe toda a espécie de proselitismo em reuniões mistas”.
I Conferência Nacional de Escotismo - 31 de janeiro e 1 de Fevereiro de 1925
Teve lugar na Câmara Municipal de Lisboa, com a presença de numerosas entidades oficiais e particulares, tendo a sessão inaugural sido presidida pelo dr. João de Barros, ministro da República.
Foi notável o êxito alcançado por esta 1ª Conferência Nacional do Escotismo, que teve o seguinte programa:
O Escotismo e a preparação militar, tese apresentada pelo coronel do Estado-Maior Henrique Pires Monteiro, professor da Escola Militar e membro do Conselho Nacional da AEP.
O intercâmbio com o estrangeiro nas instituições portuguesas de educação pelo sistema de Baden-Powell, tese defendida pelo dr. Dinis Curson, escoteiro chefe e ex-comissário das relações internacionais da AEP.
Necessidade da preparação teórica dos dirigentes escoteiros, tese do engº. Henrique de Barros, escoteiro chefe e comis-sário das relações internacionais da AEP.
O sistema das insígnias, tese apresentada pelo dr. Alfredo Tovar de Lemos. Comissário nacional da AEP.
Recrutamento dos Chefes e seu treino, tese também apresentada pelo dr. Tovar de Lemos.
A influência Social do Escotismo, tese defendida pelo escoteiro-chefe Marcelo Alves Caetano.
Da Viabilidade e eficácia do Escotismo em Portugal, tese do dr. Álvaro Viana de Lemos, Professor da Escola Normal de Coimbra.
Campos de Jogos, tese apresentada por Eduardo Moreira, secretário-geral da ACM do Porto e comissário de zona da AEP.
As conclusões destas teses, aprovadas pela Conferência, constituíram um precioso repositório de orientação para o Escotismo em Portugal.
13-23 de Agosto de 1927 – 1º Acampamento Nacional
Teve lugar na Mata de Queluz e funcionou, também como Escola de Guias, dado o empenhamento na formação que do-minava nos meios dirigentes da AEP.
Foi uma actividade muito importante, que veio evidenciar o desenvolvimento alcançado pela Associação, depois das transformações operadas após a entrada do dr. Tovar de Lemos
Inicialmente tratado como se fora um Campo da Escola de Guias, pelo número de escoteiros e dirigentes presentes, pelas actividades realizadas, pelo interesse que despertou tanto nas entidades oficiais como no público, esta actividade veio a ser considerada, nos registos da AEP, o seu 1º Acampamento Nacional.
Compareceram os grupos nºs. 1, 2, 5, 7, 9, 11, 25 e 40, de Lisboa; delegações do Porto, Coimbra, Figueira da Foz, Algarve, Oliveira de Azemeis, Seixal, Torres Novas e Torres Vedras.
Os escoteiros da Escola de Guias constituíram-se em cinco patrulhas, para instrução e serviço ao acampamento.
4 de Março de 1929 - A primeira visita de B.P. a Lisboa
Vindo de um cruzeiro do Mediterrâneo e ilhas do Atlântico, o paquete “Duchesse of Richmond” atracou ao cais da Rocha de Conde de Óbidos, pelas 6 horas da tarde daquele dia 4 de Março. No mastro principal do navio sobe a flâmula do Escoteiro Chefe Mundial. No cais, encontravam-se numerosas representações de escoteiros e muito público. Uma guarda de honra constituída pelos Escoteiros de Portugal e seus convidados: Corpo Nacional de Scouts e Adueiros de Portugal.
Baden-Powell sobe à ponte de comando e recebe a entusiástica saudação dos escoteiros portugueses, enquanto a multidão se agita e ovaciona o Fundador do Escotismo. Subiram então a bordo: representantes do Governo Português; dr. Tovar de Lemos, Albano da Silva e Sigvald Wiborg, respectivamente, comissário nacional, secretário-geral e comissário internacional da AEP; coronel Godfrey T. Pope, sobrinho de B.P. e grande amigo e colaborador dos Escoteiros de Portugal; dr. Weiss de Oliveira, representante do CNS; Roberto Moreton, presidente do Grupo n. 1 e outros dirigentes das três associações portuguesas.
No dia seguinte, acompanhado de dirigentes dos Escoteiros de Portugal, B.P. visitou em Cascais o Presidente da República, general Óscar Carmona. À tarde, concentraram-se na Praça do Comércio 700 rapazes em representação das três associações e organizou-se um desfile que subiu a Rua Augusta e percorreu várias ruas da cidade. O público abriu alas e aplaudiu a passagem dos escoteiros. B.P. recebeu as honras dos escoteiros, ao lado do dr. Tovar de Lemos, a uma varanda da Escola Nacional, que então existia na antiga Rua Eugénio dos Santos (hoje Portas de Santo Antão). O cortejo seguiu até à Sociedade de Geografia, onde já se encontravam as raparigas (guias da AEP) e os lobitos de Carcavelos. A Sala de Portugal ficou literalmente cheia e as galerias estavam repletas de uma escolhida assistência. Ao entrar na sala, B.P. foi acolhido com uma estrondosa ovação.
Constituída a Mesa, a que presidiu o Conde de Penha Garcia, presidente da Sociedade de Geografia, ladeado por B.P., dr. Tovar de Lemos, almirante Ernesto de Vasconcelos e coman-dante Álvaro de Melo Machado.
O Conde de Penha Garcia, depois de saudar o visitante em inglês, proferiu em português um brilhante discurso, enalte-cendo a obra educativa de Baden-Powell, findo o qual lhe entregou o diploma de sócio honorário da Sociedade de Geo-grafia. Saudaram o visitante os drs. Weis de Oliveira, pelo CNS e Alexandrino dos Santos, pelos Aduaeiros de Portugal, tendo terminado o dr. Tovar de Lemos, comissário nacional da AEP.
Baden-Powell, profundamente sensibilizado, proferiu então uma saudação aos escoteiros portugueses, que Roberto Moreton traduziu:
“Sinto-me verdadeiramente satisfeito por estar entre os meus irmãos escoteiros portugueses, lamentando que a visita seja tão curta. Levarei saudades de vós e da boa impressão do vosso gentil acolhimento. Dentro em pouco, terei de partir, porque o vapor não espera por ninguém.
“Antes, porém, de partir, escoteiros, eu quero deixar-vos três conselhos:
“1º. Deveis procurar, por todas as formas e em toda a parte, cumprir a Lei do Escoteiro.
“2º. Deveis dizer no vosso coração – o meu país é grande, mas hei-de fazê-lo maior ainda.
“3º. Todos vós deveis ser amigos dos escoteiros dos outros países”.
Lembrou que ia realizar-se em Birkenhead, na Inglaterra, um Jambori de 30.000 escoteiros e manifestou o desejo de ver ali os rapazes de Portugal. Terminou saudando os portugueses em nome dos “Boy Scouts” britânicos. B.P. retirou-se de imediato e seguiu para a Rocha do Conde de Óbidos, onde embarcou 5 minutos antes da saída do vapor. Às 19h00 o “Duchess of Richmond largava a caminho de Inglaterra.

B.P. em Lisboa, ladeado por Tovar de Lemos, Albano da Silva e Weiss Oliveira
Agosto de 1929 – O III Jambori Mundial
Os escoteiros portugueses não quiseram decepcionar B.P., quando na sua visita a Lisboa manifestou o desejo de os ver em Birkenhead, no III Jambori. Em 28 de Julho de 1929, embarcaram no paquete “Andes” cinquenta escoteiros, sendo 25 da AEP e outros 25 do CNS, graças às facilidades concedidas pela Mala Real Inglesa, depois das diligências feitas por Roberto Moreton e Godfrey Pope.
Este Jambori foi designado da “Maioridade”, pela comemo-ração dos 21 anos do Escotismo. Foi muito apreciada a pre-sença de Portugal. O coronel Wilson fez as melhores refe-rências aos escoteiros portugueses e Baden-Powell recordou com muita satisfação a visita que meses antes fizera a Lis-boa, a boa impressão que lhe causara o nosso Escotismo e que muito o penhorava a sessão de despedida na Sociedade de Geografia.
Um acontecimento memorável marcou esta grande reunião. Por iniciativa das duas associações da Dinamarca, estava a correr pelos escoteiros de todo o mundo uma subscrição (cada escoteiro não podia concorrer com mais de dois pence, ou equivalente) para oferecer a B.P. uma prenda significativa pelos vinte e um anos do Escotismo. Toda esta organização foi conservada em segredo mas, para eleger o objecto a oferecer, os dinamarqueses procuraram Lady Baden-Powell e pediram-lhe que, sem dizer para quê, se informasse junto do Chefe. qual seria a oferta que gostaria de receber. Ele pensou um pouco, agradeceu a amabilidade e, depois de recusar, perante a insistência respondeu, com bom humor: “Sim, é verdade os meus suspensórios estão velhos; se quiserem oferecer-me um par, ficarei agradecido”.
Foi assim que, durante o Jambori da Maioridade, B.P. recebeu um par de suspensórios e um automóvel “Rolls-Royce”, com reboque para campismo, oferta dos escoteiros de todo o mundo. É hoje uma peça do Museu de B.P.
V Conferência Internacional do Escotismo
Logo a seguir ao Jambori, realizou-se a V Conferência Inter-nacional, no castelo de Arrow Park, também em Birkenhead. Foram delegados à Conferência: dr. Tovar de Lemos, Albano da Silva e Joaquim Duarte Borrego, pelos Escoteiros de Por-tugal, e D. José de Lencastre, dr. Avelino Gonçalves e dr. Weiss de Oliveira, pelo Corpo Nacional de Scouts.
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