domingo, 26 de dezembro de 2010

Da nossa história…(8)

Nova fase da Associação dos Escoteiros de Portugal (apoiada na História dos Escoteiros de Portugal, de Eduardo Ribeiro)


Rev. Eduardo Moreira á esquerda


Dr. Tovar de Lemos


No final de 1920 a vida associativa não era famosa. Eduardo Moreira, um dos dirigentes de mais elevada estatura intelectual que serviram o escotismo, que era, ao tempo, o secretário da AEP, conta mais tarde, com a sua reconhecida modéstia, como promoveu a reviravolta que veio a operar-se na Associação.

“… vi-me só, como secretário de uma Direcção que havia perdido todos os seus elementos directivos. Então, com o dr. Joaquim Fontes, foram longos serões de trabalho e preocupação. Também recebemos preciosa ajuda do dr. Dinis Curson, que ficou nas minhas recordações como um grande amigo do Escotismo… depois, veio o dr. Tovar de Lemos e a coisa entrou nos eixos. Tive a honra de ir pedir-lhe o favor de nos acudir, já que a associação estava, como se pode dizer, na minha algibeira…”

Estava-se em 1921, Tovar de Lemos tomou posse como Presidente e Escoteiro Chefe Geral e chamou ao Movimento colaboradores válidos, procurando preencher todos os cargos, por forma a dinamizar os Escoteiros de Portugal.
Convidou personalidades de grande prestígio para o desempenho dos cargos de Comissários Regionais, tendo nomeado o General Craveiro Lopes (mais tarde Marechal e Presidente da República) para comissário na Índia; o capitão Ismael Mário Jorge, para Moçambique; o 1º tenente Vasco Lopes Alves, para Angola; o dr. António A. Riley da Mota, para P. Delgada; o 1º tenente Gabriel Maurício Teixeira, para o Porto; o professor Álvaro Viana de Lemos, para Coimbra, coadjuvado pelo dr. Ernesto Tomé, como chefe do Núcleo da Figueira da Foz. Para o Algarve, nomeou o coronel Pires Viegas, que teria como adjunto João Trigueiros.
Conseguindo, ainda, reunir diversos caminheiros para coadjuvar a Comissão Administrativa e apoiar as actividades regionais.

Apercebendo-se de que o grande problema era a falta de escoteiros chefes capazes, pois os que existiam estavam geralmente velhos e cansados, Tovar de Lemos promoveu a realização de um Campo Escola de Chefes, que veio a funcionar em 1922, na Escola Normal de Benfica, da qual era director um grande entusiasta do Escotismo – o dr. Luís Passos.
A delineação do programa deste curso foi trabalho do próprio Tovar de Lemos, que o submeteu à apreciação do coronel Wilson, dirigente do Escotismo Britânico (mais tarde Comissário do World Scout Bureau, tendo vindo a Portugal nessa qualidade em 1951).
Esse Campo Escola de Chefes foi um êxito e os resultados podem ser medidos pelo punhado de escoteiros chefes que saíram desse Campo Escola: Marcelo Caetano, Luís Teixeira, Henrique de Barros, Amâncio Salgueiro, Fausto Salazar Leite, Henrique Casquilho, Júlio Leão de Almeida, Albano da Silva, Luís Grau Tovar de Lemos, Aníbal Gonçalves Ramos, José David, Júlio Marques, Cansado Gonçalves, Álvaro Dória, João Trigueiros, António Afonso, David Baudouin, Sobral Martins e outros cujos nomes não foram retidos. Tovar de Lemos soubera rodear-se de bons colaboradores, entre os quais se contavam Alberto Lima Basto, Joaquim Duarte Borrego, dr. Dinis Curson e Franklin de Oliveira, escoteiros chefes já considerados diplomados.
Tovar de Lemos conseguiu interessar o Governo pela Associação, o que permitiu a nomeação de representantes de alguns Ministérios junto da Direcção Central, tais como o prof. Aníbal Pinheiro, do Ministério da Instrução, o coronel Reis e Silva e o comandante Pedro Peters.

Entretanto, os grupos eram objecto de uma atenta vigilância, realizando-se frequentes visitas, em que tudo era observado e examinado. O dr. Tovar de
Lemos deslocou-se várias vezes à província, em viagens de inspecção aos grupos das regiões do Porto, Coimbra e Algarve.

A própria Associação foi atingida por esta profunda remodelação, tendo ficado assim estruturada em 1923:

Presidente Honorário: dr. António José de Almeida, Presidente da República.
Vice-presidentes Honorários: dr. Teófilo Braga, dr. Bernardino Machado e almirante Canto e Castro, ex-presidentes da República.
Escoteiro Chefe Geral Honorário: Lord Baden Powell, (título que lhe fora conferido em 1921)

Conselho Nacional:
Humberto Martins, dr. Alfredo Tovar de Lemos, Egídio Bellinge da Mata (director da ACM), coronel Apolinário das Chagas, Alberto Lima Basto, dr. António Augusto Curson, Fausto Salazar Leite, Joaquim Duarte Borrego, dr. João de Barros (director geral do ensino primário e secretário geral do Ministério da Instrução Pública), Joaquim Amâncio Salgueiro Júnior, Luís Filipe Cardoso, dr. Luís Passos (director da Escola Normal), dr. Alfredo da Costa Andrade e dr. Joaquim Andrade Saraiva (ambos administradores do Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios). Foram depois agregados o coronel Frederico Ferreira de Simas, dr. Magalhães Lima, dr. Edmundo Lima Basto e dr. Augusto de Castro.

Comissão Executiva:
Presidente e Escoteiro-Chefe-Geral: dr. Tovar de Lemos
Vice-presidente: tenente Mário Pala
Secretário-geral: Fausto Salazar Leite

Foram ainda constituídas as seguintes Comissões:
Técnica; Administrativa; Saúde e Educação Física; Desportiva; Pedagógica; Jurídica; Propaganda; Revisora de Contas. Nestas comissões repetiam-se alguns dos nomes já referidos, mas apareciam outros de muito valor e prestígio como o dr. Faria de Vasconcelos, dr. Afonso Manaças, dr. Marcelo Caetano, Manuel Borrego, Cosme Vieira Leitão, dr. Alberto Pimentel, dr. João Camoezas, professor Ermelindo dos Santos, dr. Salazar Carreira, Albano da Silva e António Manuel Ribeiro.

Este escol de dirigentes, que fizemos empenho em referir, evidencia o esforço feito pelo dr. Tovar de Lemos para
dotar a AEP de estruturas capazes de promoverem a difusão e a qualidade do Movimento no nosso País, objectivo conseguido por toda uma década, durante a qual a AEP viveu uma gloriosa expansão e realizou ou participou em importantes actividades, designadamente:
II Jambori Mundial e II Conferência Internacional, em Agosto de 1924; 1ª. Conferência Nacional do Escotismo, em Jan/Fevereiro de 1925; I Acampamento Nacio-nal, em Agosto de 1927; Primeira visita de B.P. a Portugal, em Março de 1929; III Jambori Mundial e V Conferência Internacional, em Julho de 1929.

Da nossa história…(7)

Sinais de ressurgimento da A.E.P. e algumas honrarias (apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)

O período que decorre de 1918 a 1920 não é muito clarificador na vida da Associação dos Escoteiros de Portugal. O dr. Nuno Magalhães Domingues, que havia sucedido na Presidência da Direcção ao dr. António Sá Oliveira, que no fim de 1917 deixara aquele posto (após o regresso de Melo Machado para escoteiro chefe nacional), também abandonou o seu lugar. Sucede-lhe, então, o dr, António Augusto Curson, pessoa de grande prestígio nacional, que durante muitos anos cooperou com os Escoteiros de Portugal.
Mas, neste período também aconteceram coisas muito interessantes.
Eduardo Moreira, que desde a primeira hora assumia a pasta de secretário da AEP, continua a dar provas da sua grande dedicação e da sua enorme competência. Por diligências suas, o Governo Português deliberou distinguir o Fundador do Escotismo, Lord Baden-Powell, com a Comenda da Ordem Militar de Cristo, por reconhecer os relevantes serviços por ele prestados à humanidade.
Numa carta dirigida, nessa ocasião, aquele prestigiado dirigente escotista, B.P. manifesta a sua gratidão pela honraria que acabava de lhe ser concedida, carta essa que é uma verdadeira relíquia para os escoteiros portugueses:

“ Caro Senhor,
Estou profundamente grato pela honra com que o Governo da República Portuguesa se dignou distinguir-me, ao conceder-me a Comenda da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sinto-me indigno, por completo, de semelhante honra no que diz respeito a qualquer acto da minha parte, mas calculo que o ter sido alvo desta distinção se deve unicamente aos bons ofícios dos dirigentes da Associação dos Escoteiros.
Dificilmente poderei exprimir como estou grato por esta sensibilizante prova da sua boa vontade. Se algo houver, em assuntos de Escotismo, que me permita provar que mereci tal honra, espero que mo digam.
Fico esperançado em ter a oportunidade, não muito distante, de me encontrar com alguns dos meus irmãos Portugueses.
Entretanto, com votos cordiais de bom êxito para o Movimen-to Escotista em Portugal e com renovados agradecimentos,
Creia-me sinceramente
a)Robert Baden Powell”


A este episódio se refere, ainda, B.P. num dos seus livros:

“Há algum tempo, na presença de grande número de escoteiros, recebi a Ordem de Cristo das mãos do Embaixador de Portugal, em recompensa daquilo que fazem os escoteiros neste país.
Agradecendo ao Embaixador, disse que me era feita uma honra particularmente grande, porque era uma Ordem conferida, em Portugal, aos antigos Escoteiros marítimos.
O Infante D. Henrique denominado O Navegador pelas suas viagens aventurosas e pelas suas engenhosas invenções para ajudar os marinheiros a encontrar a sua rota, era ele próprio Grão-Mestre da Ordem de Cristo e foi graças a ele que Portugal produziu uma série tão maravilhosa de aventureiros e colonizadores.
Provavelmente uma ou duas pessoas acharam que eu fazia demasiado caso de Portugal e disseram-me: e os nossos lobos-do-mar britânicos, os Hawkins, os Drake, os Raleigh, os Gilbert? Tive de responder em minha defesa: “Lede a história e vedes que o Cabo da Boa Esperança foi descoberto por Dias em 1487; a Índia por Vasco da Gama em 1498; o Brasil por Cabral em 1500; e a América do Sul, no ano seguinte por Américo Vespúcio, enquanto Magalhães descobria, ao sul da América, o estreito de seu nome, tão terrivelmente perigoso, em 1519. Todos portugueses ou espanhóis.
É verdade que Hawkins esteve à vista do Brasil, Martin Frobisher explorou a Passagem do Nordeste em três viagens diferentes; “sir” Walter Raleigh explorou as Índias Ocidentais e o Orenoco, no norte do Brasil; William Adams alcançou, em primeiro lugar, o Japão e ligou-se de amizade com os japoneses, em 1600; “sir” Humphrey Gilbert fundou a colónia da Terra Nova; e John Hawkins abriu a África Ocidental ao comércio, enquanto “sir” Francis Drake fez a volta ao mundo, seguindo Magalhães através dos estreitos que ele tinha descoberto.
Mas há uma diferença de datas. As descobertas dos portugueses foram feitas no tempo dos avós e dos pais dos nossos marinheiros.
Se os nossos compatriotas fizeram face às dificuldades e aos perigos com pequenos barcos insuficientes, maus instrumentos e pobres provisões de boca, isto dá uma fiel ideia da coragem dos outros homens que estavam ainda mais mal colocados no que diz respeito a este assunto, quando se faziam à vela para o desconhecido.
Com toda a lealdade é preciso prestar homenagem a quem de direito.
Espero que vos lembreis disto quando encontrardes nos Jamboris irmãos escoteiros doutros países.”


Para o glorioso combatente de Mafeking e denodado batedor da selva africana, nenhuma outra homenagem poderia estimular mais o seu orgulho do que ser distinguido com a mesma condecoração com que outrora eram agraciados os nossos bravos e arrojados navegadores de Quinhentos, que foram autores da mais bela das epopeias marítimas, os verdadeiros Escoteiros marítimos da Antiguidade.


PRESENÇA DE PORTUGAL NO I JAMBORI MUNDIAL
A delegação portuguesa ao I Jambori mundial

O primeiro Jambori mundial realizou-se em Londres, no vasto recinto Olympia, em 1920. Esta reunião de escoteiros de vários países foi uma notável iniciativa de Baden-Powell, que se transformou numa tradição indispensável do Movimento Escotista.
Não era fácil, naquele tempo, constituir uma delegação para representar Portugal em tal acontecimento. Foi Robert Moreton, presidente do Grupo n.º 1 o grande impulsionador desta representação, fazendo todas as diligências e removendo obs-táculos, para reunir uma delegação de 11 elementos, constituída de entre os mais entusiastas escoteiros e dirigentes, a saber: Humberto Martins, Albano da Silva, Alberto Lima Basto, Joaquim Duarte Borrego, Carlos Frias, Henrique de Barros, Dinis Curson, José Maria Galvão Teles, Sobral Martins, Franklin de Oliveira e José Borrego.
Esta delegação foi rodeada da atenção própria de uma representação nacional, tendo o Ministério dos Negócios Estrangeiros concedido passaporte diplomático a quase todos os nossos representantes, o que evidencia o interesse que mereceu a nossa presença em Inglaterra.
Robert Moreton, súbdito inglês, acompanhou a delegação e, em Inglaterra, continuou a apoiá-la e a prestigiá-la.
Grande parte dos nomes atrás referidos, vieram a marcar a vida da A.E.P., destacando-se como dirigentes escotistas com relevantes serviços prestados.
A cerimónia mais expressiva desta primeira reunião de escoteiros das mais diversas partes do mundo, foi a manifestação espontânea dos milhares de rapazes presentes que aclamaram Baden-Powell como Escoteiro Chefe Mundial, título que não voltou a ser dado a mais ninguém depois da sua morte, que ocorreu em Janeiro de 1941.

Um testemunho histórico da vida do Grupo n.º 9 da A.E.P.

Extracto tirado de “ O Sport de Lisboa”, em 5 de Junho de 1915.Edição do Pata Tenra - Nº 14/2008Artigo do Dr. Jaime Neves.

“ Ninguém, por assim dizer, se interessa por eles, ninguém procura ajudá-los, quase ninguém os conhece. E quando eles passam nas ruas, garbosos, correctos, com a convicção de que são alguém que quer alguma coisa, uma compostura viril no seu rosto de crianças, uma decisão bem vincada nos seus olhos, onde a vida ainda não empanou a limpidez da infância, os transeuntes indiferentes dos altos espíritos preocupados apenas com as frases problemas, da politiquice indigna, olham-nos, vêem-nos, sorriem e têm deles a mesma compreensão que um sabonete tem do sistema Solar! São maduros…
Pois senhores, esses rapazitos tão benevolentemente julgados sem apelação, deram apoio nas horas trágicas da revolução de uma demonstração cabal e gloriosa do que são e do que valem. A madureza que os levou a aprender como se faz uma estafeta, como se despreza o perigo e como se cultiva a coragem, foi uma maneira bem-dita que desabrochou em culminâncias de heroísmo e de bondade.
Passaram da sua obscuridade e edificaram aos olhares pasmados dos lisboetas a sua indomável energia de crianças, afeitas a uma disciplina bem orientada que lhes valoriza o físico e desenvolve o moral, absolutamente identificados com a letra do seu juramento de honra:
- “Ser leal à sua Pátria”.
- “ Auxiliar o próximo em todas as circunstâncias”.
De como eles cumpriram a sua missão, rezam os variados relatos e notícias da imprensa diária.

Da nossa história…(6)

Momentos perturbadores
na vida da A.E.P.
(apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)

Apesar do seu reconhecimento oficial, a situação na A.E.P. em 1917 não era muito agradável. Escrevendo em “O Escoteiro”, no mesmo número em que era publicado o Decreto 3120 – B, confessava Melo Machado:”Vão decorridos cinco longos anos desde que no nosso país se introduziu o Escotismo. E, nesse período de tempo relativamente importante, durante o qual algumas boas vontades tão dedicadamente trabalharam para que se alcançassem os resultados atingidos em outros países, a obra realizada é menos que modesta, é quase desanimadora…
"… Em Portugal e suas colónias não contaremos trezentos escoteiros”. Este era um desabafo de muita tristeza do então Escoteiro Chefe Geral, que logo acrescenta um pouco mais optimista: “Mal parecerá que num momento em que esperanças novas ressurgem com a publicação de um decreto em que o Governo português, reconhecendo finalmente a Associação dos Escoteiros de Portugal, veio dar ao Escotismo algumas bases em que pode apoiar-se um novo esfoço produtivo, soem palavras de desânimo a esfriar os entusiasmos que se esboçam…”.Mas, apesar destas palavras de esperança, o desânimo era evidente e, é ainda Melo Machado que analisando a origem do mal comenta: “Estamos num meio muito desfavorável ao Escotismo. País de gentes indisciplinadas, dividido por apaixonadas lutas polí-ticas que esmorecem todos os ideais, onde infelizmente o Patriotismo é quase apenas uma palavra, e onde não há educação cívica , o Escotismo aparece aos olhos da maior parte das pessoas como um idealismo, uma verdadeira madureza, permita-se-me o termo”.Melo Machado era um dirigente devotado ao serviço do Escotismo, mas a sua dedicação, a forma como cumpria o seu dever de dirigente, tornava-o muito exigente e conflituoso. Os Grupos eram convocados e, se não compareciam ou não eram pontuais, eram repreendidos sem hesitação.
A disciplina férrea, de tipo militar, que o Chefe Geral procurava impor, encontrava opositores naqueles que defendiam um método mais liberal e democrático e não aceitavam pacificamente esse género de chefia. Os conflitos surgiam e o desinteresse afirmava-se. Se somarmos a isto a resistência das mães a que seus filhos se expusessem ao “perigo” das actividades dos escoteiros, teremos a explicação de tão desanimador resultado.
Em Agosto de 1918, em vez de progredir a AEP regredia, registando em efectividade, apenas os seguintes Grupos: n.º 4, Torres Vedras; n.º 9, Lisboa; n.º 11, Lisboa (Liceu Camões); n.º 13, Amadora; n.º 18, Braga; n.º 19, Santarém; n.º 26, Porto; n.º 27, Évora; n.º 34, Ribeira de Santarém; n.º 35, Porto; n.º 36, Funchal (Liceu Central). Inactivos, encontravam-se: o n.º 2, Lisboa; n.º 3, Lisboa (Liceu Pedro Nunes); n.º 12, Lisboa (Liceu Passos Manuel); n.º 14, Lisboa (Liceu Gil Vicente); n.º 30, Lisboa (Escolas Primárias); n.º 31, Lisboa; n.º 32, Almeirim.
Registe-se a ausência naquele registo dos Grupos n.ºs 1 e 7, que se encontravam em funcionamento, mas desligados da Associação, por situações conflituosas.
Se fizermos o paralelo com o efectivo de 1915, verificaremos a diferença e a razão do desânimo.
Deve-se reconhecer, no entanto, que a diminuição de efectivos nos Escoteiros de Portugal não era acompanhada de qualquer degradação da qualidade. Os escoteiros que permaneceram nas fileiras constituíam um núcleo de autêntica “elite”. Durante este período, os escoteiros distinguiram-se em generosos actos de altruísmo e abnegação, como nos grandes incêndios das Encomendas Postais, do Limoeiro, do Teatro Ginásio, na sangrenta revolução de 5 de Dezembro de 1917 e noutros acontecimentos que marcaram aquela época.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ECOS LONGÍNQUOS DO JAMBORI MUNDIAL DA PAZ


Eduardo Ribeiro, Capitolino Macedo e Joel Ribeiro,
delegados do Sempre Pronto no Jambori da Paz, em 1947

Um acontecimento Escotista verdadeiramente histórico

Em 1947, havia terminado há pouco a famigerada II Guerra Mundial que, de forma tão dolorosa, ensombrara durante anos o mundo inteiro, realizou-se em Moisson, uma pequena povoação ao norte de Paris, o VI Jambori Mundial do Escotismo, o qual recebeu a designação especial de “Jambori Mundial da Paz”, em virtude do conflito mundial ter terminado pouco tempo antes, cerca de 2 anos.
Foi um acontecimento excepcional, retumbante mesmo, que teve uma feição talvez impossível de ser repetida, uma vez que o mundo acabara de sair de uma conflagração invulgar, que afectara o mundo inteiro, por-tanto muito difícil de, felizmente, ter uma repetição.
Os Escoteiros de Portugal, bem como o Corpo Nacional de Escutas, estiveram lá presentes e bem assim o jornal escotista “Sempre Pronto”, nessa altura um jovem órgão de Imprensa que vivia no interior da nossa Associação. Foram seus representantes o seu director, o meu irmão, Eduardo Ribeiro, o seu administrador, o Capitolino Macedo, e eu. Tratou-se de uma resolução que permitiu que o nome da nossa Associação não passasse despercebido neste importante certame escotista.

Um dos mais assinaláveis momentos desta deslocação ocorreu durante a passagem destes três escoteiros pela cidade de Madrid, onde tinham feito a primeira paragem. A Espanha, nesses anos, estava dominada pelo regime totalitário imposto pelo general Franco, o qual, como é sabido, não autorizava a prática do Escotismo naquele país. Esta a razão porque, durante a passagem dos aludidos escoteiros portugueses por Madrid, visto que eles, durante toda a viagem, seguiam devidamente uniformizados, causar enorme espanto entre a população. De uma maneira geral, o povo espanhol ignorava, por completo, o Escotismo. Naqueles tempos, as viagens ao estrangeiro eram uma actividade mesmo rara. Nem os portugueses iam a Espanha, nem os nossos vizinhos nos visitavam. E o mesmo sucedia em todo o mundo. Por isso, eles ignoravam totalmente o que era o uniforme escotista.
A presença dos escoteiros portugueses uniformizados tinha, por isso, de causar grande surpresa e foi motivo de enorme e inesperada sensação! Muitos dos madrilenos exclamavam: “son requetés!”, o que nos deixava muito intrigados. Que significava o termo “requeté”, não sabíamos. Só mais tarde, consegui averiguar que essa palavra denominava os membros de um movimento político-militar armado, de carácter carlista, espanhol, o qual, durante a guerra civil do país vizinho, fora incorporado na Falange espanhola e lutara, durante esse conflito, ao lado das tropas do general Franco. Nunca me foi dado saber se o uniforme dessas forças se assemelhava, ou não, ao do movimento escotista.
Durante esse dia, passado todo em Madrid, deu-se um caso de muita importância:
Quando percorríamos uma das ruas centrais da capital espanhola, fomos abordados por dois jovens daquele país, os quais nos disseram que eram antigos escoteiros espanhóis, mas que não podiam praticar o Escotismo por isso lhes estar oficialmente vedado. Disseram-nos que se chamavam José Forasté Oliver e José Magallón Marrón. Manifestaram grande admiração por estarem a ver escoteiros uniformizados na sua terra, o que lhes causava, como é natural, grande espanto e saudade.
Tínhamos de prosseguir a viagem para França. Ficou combinado, por isso, que no regresso do Jambori tornaríamos a encontrar-nos com eles. E assim sucedeu. À volta contactamos de novo com esses jovens, agora já na companhia doutros antigos escoteiros da nação vizinha, entre os quais se encontrava Enrique Genovés, natural de Valência, que tivemos então o gosto de conhecer, o qual se tornaria um grande amigo dos escoteiros portugueses e um valioso colaborador do jornal “Sempre Pronto”, onde usava o conhecido pseudónimo “Ojo de Lince”. Também sua esposa, a insinuante D. Loreto Azpeitia y Lopez de Ayala, possuidora de excelentes dotes literários, se tornou igualmente colaboradora do nosso jornal.
Genovés foi, mais tarde, um credenciado dirigente do Escotismo espanhol, movimento que ressurgiu após a extinção do regime franquista. Escritor de muito mérito e reconhecida cultura, é o autor de relevantes considerações que ele fez, num impresso que tenho em meu poder, a propósito de meu Irmão, onde se lê: “Eduardo Ribeiro, el tantos años esforzado mantenedor de SEMPRE PRONTO, activo miembro de la Fraternal de Antíguos Escoteiros, falleció en Brasil”, o que corresponde a uma homenagem que, em Portugal, nunca lhe foi prestada, isto apesar de ele ter oferecido ao nosso movimento uma dedicação sem par, com vários anos como director do “Sempre Pronto”, jornal que quase não lhe sobreviveu, e ainda como chefe do Grupo nº. 94, como dirigente nacional, obreiro infatigável da Fraternal, activo precursor do Guidismo na nossa terra.
São estas algumas das considerações sugeridas pelos acontecimentos que marcam um dos períodos mais férteis do Escotismo Português e também deste movimento a nível mundial, factos que não é crível que se venham a repetir, já que se alterou, por completo, o panorama político e social em todo o mundo.
Joel Ribeiro

Da nossa história… (5)

Consolidação do prestígio dos ESCOTEIROS DE PORTUGAL

(apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)

Decorria o ano de 1916 e, apesar da enorme aceitação dos escoteiros pela população, graças ao seu comportamento cívico exemplar e graças às suas meritórias intervenções, a Associação dos Escoteiros de Portugal, fundada em 6 de Setembro de 1913, não tinha ainda reconhecimento oficial do Governo. Todavia, desde que iniciaram a sua actividade que os grupos de escoteiros assumiram como suas as tarefas de auxílio ao semelhante, colaborando com os bombeiros e com a Cruz Vermelha em incêndios e catástrofes, arriscando em actos de abnegação e coragem, os quais mereciam por parte da imprensa da época os mais rasgados elogios.
Foi depois da participação dos escoteiros no ataque aos pavorosos incêndio que aconteceram, em 13 de Janeiro de 1916, no Depósito de Fardamentos do Exército, onde trabalhavam cerca de 4.000 pessoas e, em18 de Abril de 1916, na Escola Naval e Arsenal da Marinha, em Lisboa, onde ficaram destruídas algumas das mais belas instalações, perdendo-se a Sala do Risco, mas tendo-se salvo a Biblioteca, pela acção corajosa e decidida dos escoteiros, que o Presidente da República, Dr. Bernardino Machado se dispôs a aceitar a presidência honorária da A.E.P., situação que se manteria nas magistraturas republicanas seguintes, passando os anteriores presidentes a vice-presidentes honorários.
Então, em Maio de 1917, o Decreto n. 3120-B, que a seguir se transcreve, aprova o regulamento da Associação dos Escoteiros de Portugal, considerando-a benemérita e de beneficência. Não deixa de ser curioso observar, a esta distância, o vigor e a intencionalidade de algumas das expressões usadas, tão ao gosto daquela época.

O texto do Decreto n. 3120 – B é o seguinte:
“Considerando que o Escotismo é uma escola de formação de carácter e um meio valioso de preparar a mocidade para o desempenho dos seus deveres para com a Pátria e para com a Humanidade, como tem sido provado nos países em que essa instituição se tem desenvolvido;
Considerando que o estabelecimento e a generalização desse sistema em Portugal seria um dos melhores processos de avigorar as qualidades da raça portuguesa e de conduzir o País, pelo aperfeiçoamento dos seus homens do futuro, ao grau de prosperidade e grandeza que constitui a suprema aspiração da República e de todos os verdadeiros patriotas;
Considerando que a experiência feita nestes últimos anos tem dado os melhores resultados, provando à evidência quanto é possível conseguir, pelo Escotismo, dos rapazes portugueses, despertando neles as mais belas qualidades e conduzindo-os à prática de actos que têm causado a admiração geral;
Mas, convindo conjugar todos os esforços para a realização desta obra eminentemente patriótica e cortar de começo quanto possa prejudicá-la sobretudo impedindo a má compreensão dos processos adoptados pelo Escotismo e a formação de organismos mal preparados para a realização do objectivo a que ela visa;
Atendendo aos resultados que a Associação dos Escoteiros de Portugal tem conseguido alcançar e as provas concludentes que esta instituição tem dado sobre a sua capacidade para estabelecer e difundir o Escotismo pelo País, como bem o demonstram os actos de abnegação, coragem e patriotismo praticados pelos seus escoteiros, principalmente por ocasião da revolução de 14 de Maio e nos incêndios do Depósito de Fardamentos e da Escola Naval, actos que têm merecido por parte do Governo e outras entidades oficiais as mais elogiosas referências;
Considerando ainda que, embora não sendo uma instituição de carácter militar, o Escotismo é um dos melhores processos de preparar a mocidade para o desempenho dos seus deveres militares, contribuindo assim de um modo muito proveitoso para a realização do programa militar que a República estabeleceu: hei por bem, sob proposta do Ministro da Guerra, decretar o seguinte:
1º - É aprovado o regulamento da Associação dos Escoteiros de Portugal, que seguidamente é publicado.
2º - Em virtude do determinado no nº 3 do artigo 15º do seu regulamento é esta associação considerada benemérita e de beneficência para os efeitos de contribuições, impostos e franquia postal.
3º - Para todos os efeitos, legais e oficiais, serão apenas considerados escoteiros aqueles que pertencem à Associação dos Escoteiros de Portugal.
4º - A ninguém estranho à Associação dos Escoteiros de Portugal será permitido o uso ou emprego dos seus distintivos, sob qualquer forma ou imitação, bem como do nome da Associação incorrendo os infractores nas penas aplicáveis por usurpação de marcas comerciais, nos termos da carta de lei de 21 de Maio de 1896.
5º - É considerado exclusivo da Associação dos Escoteiros de Portugal o uniforme composto de blusa e calção curto de caqui escuro, lenço da mesma cor e chapéu desabado castanho, sendo punidos aqueles que indevidamente usarem este uniforme ou outro que com ele se assemelhe, com as penas estabelecidas no artigo 235º do Código Penal.
6º - Todas as entidades e autoridades oficiais prestarão sempre aos escoteiros da Associação dos Escoteiros de Portugal o apoio e protecção compatíveis com as circunstâncias, quando eles disso carecem para a execução de actos beneméritos ou nos seus exercícios e acampamentos, e bem assim utilizarão os serviços que eles ofereçam prestar, proporcionando-lhes ensejo de demonstrarem as suas qualidades e aptidões.
7º - A qualidade de escoteiros ou de sócios da Associação dos Escoteiros de Portugal só poderá ser considerada como válida mediante a apresentação do bilhete de identidade, em harmonia com o disposto no regulamento da Associação, não sendo dispensada essa prova mesmo aos escoteiros uniformizados.
8º - A Direcção Central da Associação dos Escoteiros de Portugal enviará a todas as unidades administrativas exemplares dos seus cartões de identidade e um desenho do uniforme dos escoteiros, para efeitos de fiscalização e polícia.
9º - Os escoteiros não são isentos do dever prescrito pelas leis que regulam a instrução militar preparatória, podendo organizar sociedades de instrução militar preparatória nos seus próprios grupos, ou inscrever-se para aquele fim em qualquer sociedade ou núcleo de instrução militar preparatória.
Os escoteiros, dos 17 anos em diante, quando deixarem de fazer parte da Associação dos Escoteiros de Portugal, serão inscritos em núcleos de instrução militar preparatória, em face de participação da mesma associação para a inspecção de infantaria da respectiva área.
A Direcção Central da Associação dos Escoteiros de Portugal enviará à inspecção de infantaria da 1ª divisão de exército os mapas estatísticos e relatórios prescritos pelas leis da instrução militar preparatória.
Os Ministros de todas as Repartições assim o tenham entendido e façam executar.
Paços do Governo da República, 10 de Maio de 1917 – Bernardino Machado

Porém, o reconhecimento oficial da AEP, que tanto interesse deveria ter para o Escotismo, não veio a contribuir para o seu desenvolvimento. Com a existência da Lei, aumentou o autoritarismo e com este as dissidências entre os dirigentes, que faziam crescer as dificuldades organizativas da Associação.

Da nossa história… (4)

A FUNDAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS ESCOTEIROS DE PORTUGAL (apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)


Foi a 6 de Setembro de 1913 que veio a organizar-se formalmente a Associação dos Escoteiros de Portugal, por convergência dos dirigentes dos três Grupos que vieram a tomar os n.ºs 1, 2 e 3.
Mas já em 18 de Setembro de 1912, no jornal O SÉCULO, Melo Machado fazia apelo a que fosse constituída uma entidade para dirigir colectivamente o movimento, o que reconhecia ser uma necessidade imperiosa.
Todavia, parece que terá sido a visita a Lisboa, na primavera de 1913, dos escoteiros ingleses da Cidade de Hastings, com o seu vistoso desfile pelas ruas da cidade e as inúmeras festas em que participaram, proporcionando entusiástica cobertura jornalística ao jornal O SECULO - que na época acompanhava com muito interesse o despontar do movimento “scouting” no nosso País - que despoletaram o interesse publico e levaram os dirigentes dos três primeiros Grupos de Lisboa a reconhecerem que era chegado o momento de se constituírem em associação e iniciaram conversações para esse efeito.
A proveitosa visita a Lisboa dos escoteiros de Hastings deveu-se a um entusiástico movimento de solidariedade que irrompeu dentro do 1.º Grupo, quando Lisboa tomou conhecimento do naufrágio de um barco português no Canal da Mancha, frente à cidade de Hastings, tendo-se distinguido no salvamento de parte da tripulação o grupo de “scouts” daquela cidade. A convite do UM e com o apoio da colónia inglesa, que suportou as despesas, os bravos “scouts” ingleses estiveram dez dias em Lisboa e a sua visita constituiu a melhor propaganda que se poderia ter feito para o Escotismo Português.

A Direcção da AEP foi constituída pelo dr. António Joaquim Sá Oliveira, presidente; Roberto Moreton, secretário; Álvaro de Melo Machado, escoteiro chefe geral.
Sabe-se que quando se fundou a AEP já existiam outros grupos de “scouts”, além dos três que a constituíram. Frank Giles, em entrevista a O SÉCULO, em 20 de Agosto de 1912, afirmava que em Coimbra e no Porto existiam também scouts, com os quais mantinha activa correspondência. Mas mesmo em Lisboa já existiriam outras unidades. Entre estas contava-se o Grupo n.º 7, fundado em 20 de Maio de 1913, na Igreja Congregacional, por iniciativa de Abel dos Santos e Silva e Luciano Silva, elementos saídos do Grupo n.º 1.
Uma coisa é certa, os grupos n.ºs 1, 2 e 3 foram os fundadores da A.E.P. e constituíram o núcleo de onde irradiou o Movimento que, a partir dessa data, registou franco desenvolvimento por todo o País e, mais tarde, pelas colónias portuguesas do ultramar.
Até à fundação da AEP os jovens que pertenciam ao Movimento eram designados pelo termo inglês “scout” e o pró-prio movimento por “scouting”. Mas, desde logo, os dirigen-tes associativos fizeram questão de adoptar um vocábulo genuinamente português: ESCOTEIRO, aquele que viaja sem bagagem nem alforge, gastando por escote nas estalagens (termo registado em dicionários portugueses desde o século XVII). Portanto, os fundadores da Associação não fizeram uma tradução da palavra “scout”, mas procuraram no nosso léxico um vocábulo português aplicável.

Também a adaptação da Promessa e da Lei, mereceram cuidadoso estudo dos fundadores, embora neste capítulo tenham existido sérias divergências, pois, enquanto uns pretendiam ver nelas contemplado o sentido universalista do Movimento, aberto a todos os credos e raças, outros entendiam dever manter-se o carácter religioso proposto por Baden-Powell para a Lei e Promessa dos scouts ingleses, afirmando que B.P. preconizava que “cada escoteiro deve ter uma religião” e que o Scouting for Boys está eivado de sentimento religioso como princípio fundamental do Escotismo. O ponto essencial é que todos adorem DEUS, ainda que de diversas maneiras.
Não admira pois que tais divergências provocassem desde logo alguns conflitos e acusações mútuas de desvirtuamento dos ideais, sendo frequente observar diferentes versões da Lei e da Promessa, consoante o pensamento filosófico ou a orientação religiosa dos dirigentes.
Também a dureza de algumas expressões, de conceito militarista bem ao sabor da época, como “Juramento do Escoteiro”, em vez de “Promessa Escoteira”, ou “Compro-misso de Honra”, em lugar de “Compromisso do Escoteiro”, como imporia a tradução do inglês, não ajudaram à desejável harmonia de procedimentos, alguns insanáveis até aos nossos dias.

O RECONHECIMENTO PELO GOVERNO DA REPÚBLICA
Não podemos, portanto, afirmar que a implantação do Escotismo em Portugal tenha sido um processo fácil, dadas as muitas querelas que surgiam a nível interno, devido às diferenças de interpretação dos seus dirigentes. Todavia, ao nível externo, graças ao comportamento cívico dos escoteiros, o Escotismo ia adquirindo enorme prestígio e o bom acolhimento por parte da população e entidades oficiais.
Foi assim que, em Junho de 1916, surge o reconhecimento oficial. O Presidente da República, dr. Bernardino Machado, aceita a Presidência honorária da AEP, situação que se man-teria nas magistraturas republicanas seguintes, passando os anteriores presidentes a vice-presidentes honorários.
Em Maio de 1917, o Governo aprovou o Regulamento da Associação dos Escoteiros de Portugal, através do Decreto n. 3120 – B, cujo texto inicial afirma: “Considerando que o Escotismo é uma escola de formação de carácter e um meio valioso de preparar a mocidade para o desempenho dos seus deveres para com a Pátria e para com a Humanidade, como tem sido provado nos países em que essa instituição se tem desenvolvido…”
E logo o artigo 3.º consigna: “Em virtude do determinado no n.º 3 do artigo 15.º do regulamento, é esta associação considerada de benemerência e de beneficência para os efeitos de contribuições, impostos e franquia postal”.

A HISTÓRIA DOS GRUPOS
Apesar das assinaladas divergências, o Escotismo expandia-se e novos grupos se associavam na AEP, seguindo as suas actividades e a sua orientação.
Em 1915 já existiam 22 Grupos inscritos na AEP. Não se referem algumas dessas unidades por falta de elementos históricos. Mas é importante destacar algumas outras cuja actividade contribuiu para o prestígio alcançado pela AEP. Para além dos três já referidos, e pela ordem porque ficaram registados após a sua adesão à Associação dos Escoteiros de Portugal, seguem, resumidamente, alguns elementos de tais grupos:
Grupo n.º 4, fundado em Torres Vedras, no Instituto Poli-técnico, já existia em 1915, sendo seu escoteiro chefe Vítor Cesário da Fonseca. Tanto o Grupo como o Instituto Politécnico foram extintos em 1919, em consequência da gripe pneumónica. Em 1925 voltou a existir em Torres Vedras outro Grupo de escoteiros, o n.º 50, onde foram instrutores Joaquim Paulino Pereira e Augusto Nascimento Gonçalves
Grupo n.º 5, fundado na Escola Normal, no Calvário, em Lisboa. Consta que a sua fundação data dos primeiros tempos do movimento e foi seu escoteiro chefe António Pereira Coimbra, mas veio a ter curta duração. A Ordem de Serviço n.º 44, de 13 de Setembro de 1916 considera-o extinto por falta de escoteiro chefe e manda que seja integrado no Grupo n.º 9.
Grupo n.º 6, quando o Grupo n.º 2, por força do seu desenvolvimento, abandona as suas instalações na Rua da Esperança, para se instalar na Academia de Estudos Livres, foi forçado pela AEP a tomar o número SEIS, devido ao compromisso assumido com a Sociedade de Instrução Militar Preparatória, que quis manter reservado o n.º 2 no intuito de vir a organizar nova unidade, o que nunca chegou a concretizar-se. Em 1915 o “dois” retomou o seu número e o Grupo n.º 6 ficou sem história, até que foi retomado por uma nova unidade fundada em Olhão, na sequência de uma luzidia demonstração, realizada a 7 de Janeiro de 1925 por uma delegação do Grupo n.º 1, naquela Vila. O seu primeiro escoteiro chefe foi Humberto Martins, que também foi o introdutor do basquetebol no Algarve.
Grupo n.º 7, fundado em 20 de Maio de 1913, surge na União Cristã de Jovens da Igreja Congregacional, em Lisboa, por iniciativa de Abel dos Santos Silva e Luciano Silva, que abandonaram a UCML e, consequentemente, o Primeiro Grupo de que faziam parte, assumindo Luciano Silva a chefia do grupo. José Rodrigues, aderente entu-siasta desde a primeira hora, veio mais tarde a assumir a chefia, que deteve por muitos anos.
Grupo n.º 8, pouco se conhece sobre a existência do Grupo inicialmente inscrito na Associação com este número, sabendo-se apenas que foi em Faro, pelo que é suposto tratar-se da unidade de scouts criada por Amâncio Salgueiro Jr., que este reivindicava existir antes do grupo de Macau. Em Julho de 1916 era desligado da AEP, por razões ignoradas. O número OITO veio a ser utilizado por um grupo criado em Maio de 1952, na Igreja Evangélica Presbiteriana, situada na Rua Febo Moniz, em Lisboa, onde ainda se encontra, sendo seu primeiro escoteiro chefe Albano Costa, antigo escoteiro do Grupo n. 94.
Grupo n.º 9, fundado em 1914, por alguns escoteiros do grupo n.º 2, que viviam demasiado longe da sua sede na Esperança. Solicitaram à AEP a criação de uma nova unidade, que foi confiada a Joaquim Duarte Borrego, em casa de quem ficou inicialmente instalada a sede do Grupo, que foi depois para a Rua da Madalena, 91 e, mais tarde, para a Rua de Santa Marta, 204. Em Novembro de 1926 o Grupo foi acolhido no Ateneu Comercial de Lisboa, presti-giosa instituição que sempre ofereceu aos escoteiros todo o seu apoio. Quando em 1917, Joaquim Duarte Borrego foi chamado ao serviço militar e partiu para a guerra, em França, tomou o seu lugar na chefia João Clímaco do Nas-cimento, que dirigiu o grupo com êxito durante muitos anos.
Grupo n.º 10, fundado por Álvaro Melo Machado, na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), pouco depois da sua chegada a Moçambique, onde chegara em Agosto de 1914, em cumprimento de missão militar. Depois do regresso de Melo Machado, a chefia do grupo ficou entregue a Vital dos Reis Barbosa.
Grupo n.º 11, a data provável da sua fundação no Liceu de Camões terá sido em 11 de Dezembro de 1915, em que teve lugar uma festa de “cerimónia de juramento”, para a qual foram convidados os outros grupos de escoteiros de Lisboa, na qual o presidente do grupo e Reitor do Liceu fez uma conferência sobre educação.
O seu primeiro escoteiro chefe foi António Coucelo.
Esta unidade foi um alfobre de escoteiros, que vieram a desempenhar importantes cargos dirigentes nos Escoteiros de Portugal e se projectaram na vida social em elevadas posições. Bastará enunciar alguns dos seus nomes: Dinis Curson, Mário da Silva Jacquet, Alberto e Edmundo Lima Bastos, Paulo e Henrique de Barros, Francisco Caldas, Marcelo Caetano, Fausto Salazar Leite, José Maria Galvão Teles.
Dos restantes Grupos, constantes do registo de 1915, conhecem-se apenas os seguintes elementos, já que, por razões inexplicáveis, os arquivos associativos terão desaparecido, supõe-se que entre os anos trinta e quarenta do século passado.
Grupo n.º 12, existente no Liceu de Passos Manuel, em Lisboa. O actual Grupo do mesmo número, teve o seu início já nos anos 50.
Grupo n.º 13, localizado na Vivenda Alvarez, LA, na Ama-dora. Anos mais tarde, retomou a sua actividade instalado na Sociedade de Geografia, em Lisboa.
Grupo n.º 14, Rua da Junqueira, em Lisboa. Em Janeiro de 1916 instalou-se no Liceu de Gil Vicente, em Lisboa.
O mesmo número foi retomado, já na década de 50, por uma unidade instalada em Algés.
Grupo n.º 15, com a sua primeira instalação nas Esca-dinhas da Saúde, passando em Janeiro de 1916 para o Bairro do Século, Porta 2, em Lisboa. O mesmo número foi atribuído, mais tarde a uma unidade criada no Porto.
Grupo n.º 16, situado na Rua da Bela Vista à Lapa, em Lisboa, passando anos mais tarde para o Colégio inglês, em Carcavelos. Continua existindo naquela Vila, com actividade digna de nota.
Grupo n.º 17, existiu no Palácio Mancelos, no Pátio do Tijolo, em Lisboa. O número foi retomado por uma unidade instalada no Porto.
Grupo n.º 18, existiu no Colégio dos Órfãos de S. Caetano, em Braga.
Grupo n.º 19, instalado na Rua da Bombarda, em Santarém. Também na década de 50, apareceu nova unidade com este número, que continua existindo na Pontinha.
Grupo n.º 20, existiu em Aldegalega, Montijo.
Grupo n.º 21, estava instalado na Vila Bastos, 3 e passou em Janeiro de 1916 para a Trav. do Teixeira, em Lisboa.
Grupo n.º 22, existiu na Av. Elias Garcia, em Lisboa.
Grupo n.º 23, instalado na Rua Vieira da Silva, 80, em Lisboa. O actual 23 está instalado em Queluz

Não fica claro que a numeração atribuída aos Grupos corresponda à ordem da sua filiação na A.E.P., pois parece ter existido desde sempre o lamentável critério de atribuir a uma nova unidade o mesmo número de outra unidade entretanto encerrada, o que estabelece grande confusão para uma clarificação da história dos grupos.
Seria desejável que cada grupo em actividade, registasse a sua própria história, dedicando-se, outrossim, à pesquisa e divulgação da história da unidade ou unidades que o precederam. Ninguém duvidará da enorme importância que tal estudo terá para a História do Escotismo em Portugal, que um dia gostaríamos de ver publicada.